bactéria | num meio | é cultura

ontem abrimos mais uma exposição coletiva de fotógrafos que registram imagens em placa úmida de colódio. é o quarto ano consecutivo desse projeto idealizado pelo roger sassaki.

como sempre, todos os participantes elaboram todas as etapas, desde a definição do tema, a forma como abordá-lo do ponto de vista conceitual e técnico, passando pela disposição dos trabalhos no espaço, montagens, iluminação, comunicação visual e programação integrada.

no final do ano nos reunimos para pensarmos no tema, e o ano tava encerrando com o gosto amargo e com ar de uma certa desesperança generalizada: o ano tinha sido estranho e a perspectiva do cenário era de eminente piora. no calendário chinês seria o ano do cão, que pra nós brasileiros soa como um ano difícil, mas para os chineses, parece um ano de busca por equilíbrio, um olhar mais positivo.

a partir daí, cada um dos 17 artistas seguiu em busca de lidar com esse tema e produzir imagens.

confesso que o que estava mais latente para mim foram algumas bizarrices que aconteceram no meio cultural. exposições foram canceladas, artistas foram censurados e uma série de incidentes envolvendo o secretário de cultura de são paulo começaram a pipocar na cena e na mídia.

quando pensava sobre isso, uma frase de uma música do arnaldo antunes me vinha a cabeça: ‘bactéria, num meio, é cultura’. meses antes, por conta dos trabalhos com fotografias microscópicas, tinha adquirido também algumas placas de petri (placas para cultura de bactérias, fungos, etc). daí, bem conceitualmente, criei esse trabalho: registraria um retrato do secretário nas placas de petri. para isso, me apropriei de uma fotografia amplamente divulgada dele, trabalhei sobre ela para deixá-la contrastada e imprimi em jato de tinta um positivo caseiro sobre transparência. com essa transferência em mãos, segui para o lab para tentar fazer uma ampliação diretamente sobre as placas de petri (de vidro).

sanadas as dificuldades iniciais (as bordas começaram a levantar, o que foi resolvido com uma cotonetada de albumina na borda do vidro), consegui rapidamente registrar o retrato numa composição com 4 placas e aproximadamente 1 min de exposição à luz do ampliador.

a imagem estava pronta e passei muitos dias pensando na finalização do trabalho, pois o reconhecimento da pessoa não é imediato e queria dar pistas de quem ele fosse, mas não sabia muito bem como fazer…

cheguei à conclusão de que queria continuar o trabalho usando esses elementos laboratoriais e fiz uma visita às lojas de vidraria. adquiri algumas provetas e erlenmeyers de vidro e algumas rolhas de vedação. das reportagens que havia selecionado sobre essa figura pública retirei apenas as ‘aspas’: só depoimentos que ele tinha feito em contextos públicos (como resposta aos ativistas numa reunião ou justificativas de sua postura e conduta quando questionado por entrevistadores dos jornais).

não parece muito certo deixar para o último do minuto, mas a verdade é que um dia antes da abertura, estava eu, finalizando a montagem de meu primeiro trabalho mais ‘ativista’, envolvendo meu pensamento crítico/político. e estava ali, lidando com os mesmos materiais recorrentes nas minhas produções: os vidros, frascos graduados, cortiças, linhas e agulhas, e pequenos textos. justapostas, todas as minhas apropriações: frase-título, retrato-divulgação e citações-aspas.

se quiser ver ao vivo, o resultado estará na Casa Ranzini até 23/junho (mais informações, clique aqui).

hoje, como atividade integrada, resolvi compartilhar esse método de produção de imagem diretamente em placa úmida de colódio sem o uso de câmera, usando como matriz uma impressão positiva em jato de tinta caseira, emulsionando um objeto não bidimensional.

foto: roger sassaki foto: anna silveira

foi divertido. e como apareceram cerca de 20 pessoas para assistir minha demonstração e o lab é pequeno, abri uma sessão extra pra atender quem se interessou, e mesmo no final de semana do cão, conseguiu chegar até a casa ranzini. de uma certa forma, com esse diálogo direto com o público, percebi que apesar de eu dar pistas, é um trabalho bastante conceitual e talvez careça de alguma espécie de mediação.

algo a ser pensado (ou não! rs)…

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