Laboratório de Anatomia Vegetal do Instituto de Biologia da Unicamp

Nessa sexta fui ao IB onde fui muito bem recebida pela professora Dra. Sandra Carmello Guerreiro, que me deu uma aula particular de técnica de cortes histológicos para a preparação de lâminas. Comecei contando um pouco do motivo da minha procura por ela: dentro da minha investigação, senti a necessidade desse mergulho microscópico para visualizar a estrutura do pigmento dentro das células vegetais.

Fomos ao laboratório de anatomia vegetal onde ela preparou uma mesa com os utensílios necessários para fazermos os cortes e montou um microscópio.

Mesa preparada com os itens necessários para o preparo de lâminas histologicas vegetais


Eu tinha levado alguns itens que já tinha usado para fazer anthotypes e que gostaria de saber como cortar para visualizar o pigmento: amora, rosa vermelha, romã e beterraba.

O procedimento manual é utilizar metade de uma lâmina de corte (gilete). Começamos pela beterraba. Ela cortou ao meio e do centro fez pequenas fatias o mais finas e planas possíveis. Ela tem bastante habilidade e prática. Esses cortes são colocados num recipiente com água, e depois os melhores são ‘pescados’ com um pincel e depositados sobre a lâmina de vidro, coloca-se uma gota de água sobre o corte e deposita-se uma lamínula (encosta-se a lamínula inclinada numa parte molhada e solta-se devagar afim de evitar bolhas de ar). Para ter lâminas semi permanentes ela recomendou fazer esse procedimento usando gota de gelatina diluída em água, e depois de colocada a lamínula, prender com um prendedor até firmar, daí limpar o excesso das bordas e selar os cantos com esmalte incolor. Feito isso ela está pronta para ser visualizada.

Cortar finas camadas com a lâmina paralela ao vegetal para que o corte fique o mais plano possível.

Colocar os cortes em recipiente com água para mantê-lo hidratado

Com um pincel ‘pescar’ os melhores cortes para colocá-los sobre a lâmina, colocar uma gota d’água e depositar uma lamínula

 

Uma informação importante que ela me deu é que o pigmento pode estar armazenado no cromoplasto, (caso os pigmentos daquele vegetal sejam cristais lipossolúveis) ou nos vacúolos  (caso os pigmentos sejam hidrossolúveis). Todas as amostras que levei eram hidrossolúveis. Ela conseguiu arranjar (com um estudante que estava lá) uma fatia de cenoura, para me mostrar os cristais lipossolúveis. Tanto os vacúolos quanto os cromoplastos são transparentes e deixam visíveis os pigmentos em seus interiores. Com essa informação, intui que os pigmentos que melhor se prestam aos anthotypes são os hidrossolúveis, mas essa informação precisaria de mais pesquisas para ser afirmada. Seguimos com as fatias de amoras, romãs, e rosa. A amora foi das mais difíceis de cortar e a professora Sandra informou que existe um polímero (polietilenoglicol – peg) em que se mergulha a amostra e que ajuda nos cortes desses vegetais mais moles. A parafina não seria uma boa opção pois para fazer uso dela seria necessário desidratar o vegetal (e na desidratação a planta perde coloração, desbota). O peg não necessita de desidratação, é só mergulhar o vegetal fresco no peg, para depois de endurecido fazer os cortes. Não fizemos uso do peg, a Sandra tinha muita pratica e fez tudo à mão sem maiores dificuldades. Para vegetais finos (pétalas de flores) ela orientou que poderia ser usado o pecíolo de embaúba ou um pedaço de cenoura, para dar sustentação (é só fazer uma cunha, acomodar a pétala aberta no meio do corte e usar o pecíolo ou cenoura para estruturar e facilitar o corte).

Pigmentos hidrossolúveis de beterraba nos vacúolos.

Pigmentos hidrossolúveis de romã nos vacúolos.

Cristais de pigmentos lipossolúveis de cenoura nos cromoplastos.

Pigmentos hidrossolúveis de pétala de rosa nos vacúolos.

 

Uma coisa interessante que observei na imagem ao microscópio é que a rosa vermelha possui vacúolos com pigmentos vermelhos e liláses separados, e deve ser por isso que apesar da pétala ser vermelha ao maceramos temos um sumo arroxeado (os pigmentos saem dos vacúolos e se misturam resultando numa nova cor).

Ela aproveitou para observar as lâminas que eu tinha feito intuitivamente e sem rigor técnico usando esmalte incolor no lugar de água para fixar as lamínulas. Ela conseguiu ver bastante coisas, o que me deixou feliz, pois apesar da minha falta de técnica meu modo de preparo apontava que estava num caminho possível. Criticou somente uma lâmina em que a pétala ultrapassava o limite da lamínula, pois ali é um ponto de entrada de ar que oxida o vegetal e pode criar fungos também. Sinalizou que o uso do esmalte em contato com o vegetal não é recomendado por dois motivos: pode reagir com a planta e não é o melhor veículo para estar junto do vegetal, pois a luz ao passar por ele pode interferir na visualização das organelas.

Pigmentos hidrossolúveis de pétala de romã nos vacúolos. Essa lâmina não foi com o corte transversal da pétala, foi com ela inteira

Pigmentos hidrossolúveis de pétala de clitorea ternátea nos vacúolos. Os vacúolos são essas pequenas bolinhas azuis.

 

Ela me mostrou também os micrótomos para cortes ainda mais finos (mergulha-se o item desidratado numa resina que depois de endurecida será fatiada finamente por esses equipamentos).

Amostra na resina. Elas são coladas nessa madeirinha para ser acomodada no micrótomo e ser fatiada.

Existe no IB um microscópio bastante sofisticado, que tem um corpo de câmera digital acoplado a ele, e onde se pode visualizar as lâminas diretamente no monitor do computador e fazer os registros fotográficos digitais para salvar direto numa mídia (pendrive) ou num arquivo do computador. 

Nessa imagem da lâmina do corte transversal da pétala de rosa é possível ver os vacúolos com diferente cores de pigmento (vermelho e lilás).


Mostrei a ela alguns anthotypes sobre diversas folhas e ela me falou que a folha de batata doce parecia diafanizada. Perguntei do que se tratava a diafanização e ela explicou que é um procedimento que se faz nas folhas para deixá-las translúcidas e conseguir visualizar suas vascularizações ao microscópio. Ela me mostrou algumas lâminas diafanizadas que estavam guardadas em arquivos (armários com gavetinhas onde elas são armazenadas). Me mostrou desde os armários mais antigos (com lâminas com informaçoes manuscritas) aos mais novos (com informações digitadas em etiquetas adesivas).

Lâminas diafanizadas

Gaveta para guarda de lâminas

 

Essas organizações e métodos de dispor as informações nas lâminas muito me interessam. 

Perguntei a ela quais informações são comumente colocadas nas lâminas e qual a sequência, e ela me explicou detalhadamente.

Nome científico/forma de corte/parte da planta/corante utilizado/espessura/outras informações

Por fim, mostrei o último trabalho que fiz (‘materia prima’) em que uso um ‘simulacro’ de exsicata e uma miniatura do que seria uma prensa usada por biológos quanto coletam espécimes vegetais em campo. Ela gostou do trabalho e conversamos sobre agendar uma visita ao herbário do IB, onde são oferecidos cursos e atividades aos escolares que o visitam. Ela mencionou ainda que talvez eu pudesse apresentar essa abordagem artística numa dessas visitas, para contar meu processo de criação que usa o herbário como fonte de inspiração. Me coloquei muito disponível para uma atividade dessa natureza por que realmente fiquei bastante feliz com a visita e se possível gostaria de voltar e retribuir toda a gentileza e troca de informações. Saí de lá em estado de encantamento e cheia de vontade de voltar para minha produção de imagens microscópicas, agora sabendo identificar e localizar os pigmentos nas células vegetais.

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