brotar

no feriado fui até holambra. foi uma espécie de maratona: fomos à campinas ver a palestra da Rosana Paulino e da Nair Benedicto no festival hercule florence, passamos uma manhã em holambra e fomos à tarde para barão geraldo conhecer o espaço casa de Eva. de holambra trouxe várias plantinhas, entre elas um vaso com feijão borboleta, ou clitorea ternatea, para os íntimos. tinha uma vagem seca, cheia de sementinhas. resolvi fazer tal qual experimento científico do pré-primário: envolvê-las uma a uma em algodão úmido para iniciar a germinação.

na última segunda-feira fui visitar minha amiga Fátima Roque. falamos sobre muitas coisas e ela tinha separado um documentário sobre a Lourdes de Castro para eu ver. a Lourdes é uma artista portuguesa, nascida na ilha da Madeira. viajou na década de 70 para Paris e se envolveu com a cena artística de lá. voltou muitos anos depois para a madeira, onde vive até hoje numa casa ateliê cercada de jardim e plantações que cuida diariamente. é de lá que surge parte da matéria prima de vários de seus trabalho. o filme, dirigido pela Catarina Mourão, é delicado e segue os mesmos princípios de Lourdes em seus trabalhos, respeitando o vagar das coisas cotidianas, o ritmo do crescimento das plantas e o protagonismo da materialidade das sombras, tão frequente em sua produção artística. num dado momento ela diz que tem sorte de ter nascido lá, e por isso, não tem pressa nenhuma para nada.

as últimas semanas foram muito corridas, e as próximas prometem ser ainda mais aceleradas. foi muito bom passar essas horas conversando, dedicar esse tempo a ver o filme sem pressa, desfrutar do momento agora. 

quando voltei de holambra, coloquei 8 sementes no algodão ao lado da minha cama e dediquei alguns minutos todas as manhãs nos últimos dias as observando e umedecendo. dentre as oito, duas vingaram. e passadas duas semanas, já estão com dois pares de folhas cada uma.

a Lourdes lê no filme um haicai (de Kobayashi Issa) que não me sai da cabeça: 

‘nous marchons en ce monde 

sur le toit de l’enfer 

en regardant les fleurs’


nesse mundo/ nós caminhamos sobre o telhado do inferno/ olhando as flores‘.

ao ver as sementes brotadas, me lembrei do trabalho do jardim de Rubiane Maia na exposição Terra Comunal. e me lembrei da Lourdes de Castro dizendo no filme (ao pegar uns bulbos brotados dentro de um armário), que é na escuridão que essas coisas ‘trabalham’ e como seria interessante poder observar como as raízes se relacionam no subsolo. 

infelizmente, esse ritmo mais lento, ter esse momento de observar o tempo que as coisas levam para acontecer, não parece ser viável nesse mundo que vivemos hoje, em que só caminhamos no telhado do inferno. é sempre preciso cavucar espaço/tempo na agenda pra dedicar às coisas particularmente importantes. o tempo para observar as flores…

olhando para a germinação, previ umas sementes brotadas em tubos de ensaio, e já estou cheia de ideias…

o trabalho poderia chamar: ensaios sobre o tempo que faz e o tempo que passa, que tal?

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