das coisas que viram coisas…

a intersecção entre artes visuais/ciências/natureza continua a me instigar.

cada vez mais os recipientes, frascos, utensílios, modelos e formas de apresentação de plantas, folhas, extratos, algas nos museus de história natural me chamam atenção.

na semana passada estive num museu que fica dentro do jardim botânico em são paulo. é uma pequena construção envolta por uma área verde imensa, dentro da cidade. lá registrei uma série de referências inspiradoras para montagens do trabalho, no futuro. clique nas imagens abaixo, para ver maior.

no dia seguinte fui visitar uma grande amiga e conversamos muito sobre as coisas que viram coisas. de como um objeto ou imagem, ao ser fotografado/a, vira um novo objeto ou imagem. e de como eu tenho feito uma única coisa, virar muitas imagens: é a batata doce, que ao brotar, é fotografada, e em seguida, essa imagem gera um desenho feito a partir de câmara lúcida. a mesma batata brotada, gera ramos, com folhas que viram anthotypes. nesse encontro, minha amiga fez algumas fotos dessas folhas/fotos contra a luz do sol, que transformou o objeto (a foto sobre a folha de batata) em transparências, brilhos, ou seja, outra imagem.

ainda com esse diálogo em mente, conversei também com outra amiga sobre a questão do texto no trabalho acadêmico. ela me indicou um artigo do vilém flusser sobre a escrita, mais precisamente sobre ‘ensaios’. e as diferenças entre o texto estilo acadêmico – que ele chamou de tratado-, ou estilo vivo – que ele chamou de ensaio-, é precisamente o como você decide se relacionar com seu assunto. ‘No caso do tratado, pensarei meu assunto e discutirei com os meus outros. No caso do ensaio, viverei meu assunto e dialogarei com os meus outros. No primeiro caso, procurarei explicar meu assunto. No segundo, procurarei implicar-me nele’*. não me parece fazer sentido num texto reflexivo sobre poéticas visuais ‘explicar’ o assunto. visto que o trabalho mais pretende trazer questões, do que explicações. enfim… o que sucedeu a esses dois diálogos e a essa visita ao museu foi uma noite de produção de fotogramas.

fui até o laboratório com a finalidade de experimentar fazer fotogramas de plantas sobre placas úmidas de colódio. desde as primeiras experiências, senti o desejo de incluir ruídos e manchas nas imagens. para isso, utilizei alguns sais que participam da construção química da imagem,  mas o adicionei de forma dispersa.

ao revelar a placa fui surpreendida com uma série de precipitações sobre a placa. uma formação de cristais que lembram muito estruturas de algas marinhas. só que metálica, dourada. fiz novas imagens, refotogrando essas placas de alumínio. agora umas macro fotografias desses cristais vistos através de lupas e lentes de aumento. imagens gerando novas imagens.

IMG_7812 1WG3_5545WG3_5544

consegui essas paisagens noturnas submersas.

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sigo perturbada com as imagens. uma perturbação daquelas boas. e desde então, só pesquiso microscópios, procedimentos para produção de lâminas com cortes histológicos, pois me deu uma vontade danada de visualizar pelo microscópio isso que é extraído das plantas e eu tenho usado como pigmento e material fotossensível. cada vez tenho mais vontade de mergulhar mais profundamente no que é elementar, essencial, naquilo do que o material é feito. talvez esteja aí as matrizes para minhas imagens.

e esse trajeto tem sido inexplicável, dinâmico. é mesmo uma pesquisa, uma investigação. cheio de acasos, de descaminhos. impossível fazer um tratado sobre essa vivência. talvez, só mesmo um ensaio possa dar conta dessa imersão…

 

*Flusser, Vilém. Ficções Filosóficas. Ensaios, publicado no jornal O Estado de São Paulo, 19/8/1967.

.:. .:. fátima roque e camila (mindu) mangueira: nossos diálogos são sempre muito inspiradores. só posso agradecer pelas deliciosas conversas. .:. .:.

 

 

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