sobre escolhas

estacionei a bicicleta, posicionei a câmera viajante no mini tripé. coloquei o tecido preto sobre a cabeça e enquadrei a imagem no vidro despolido. ao tirar o pano da cabeça ele se aproximou um pouco mais, com um olhar curioso. ‘que estás a fazer?’, ele perguntou. ‘uma fotografia’, respondi. foi assim que teve inicio a conversa mais profunda que eu já vivi com um desconhecido até hoje.
falamos sobre nossas escolhas. as minhas, com a fotografia. as dele, com as aquarelas. o convidei para olhar pelo vidro despolido. me perguntou sobre angulo e luz. comentei que já tinha passado ali horas antes, mas que aguardei a melhor posição do sol. ele contou que também visita o assunto que vai aquarelar em vários momentos, dias e horários diferentes. que fica muito tempo somente observando e que depois disso está pronto para desenhar. que daí o objeto já não precisa estar diante dele pois tem na memória tudo que precisa para fazer quantos desenhos quiser. me questionou sobre a limitação que minha câmera me impõem (levo 6 chapas para fotografar a cada saída), perguntou se não era mais fácil eu ter uma câmera digital, que me propicia fazer centenas de fotos a cada saída. falei sobre as características que só essa câmera de madeira, que foi construída manualmente, me oferece e também do fato de que a restrição de chapas me obriga a pensar mais sobre cada uma das fotos que vou fazer. contei que depois de fotografar, ainda iria revelar os negativos e que planejava fazer as fotos com uma emulsão fotossensível que eu mesma iria preparar e que o resultado era em tons de um azul muito parecido com os azulejos portugueses. também falamos sobre obsessão na arte, e chegamos a conclusão de que facilidade não chega a ser uma hipótese para nenhum de nós dois.
ele me falou que tem feito vários desenhos em que colore somente algum detalhe e que isso foi uma demanda que surgiu, que as pessoas procuram aquarelas assim para comprar. e, com isso, falamos sobre arte ser a mercadoria que garante o almoço de cada dia e também uma necessidade pessoal para manter a sanidade mental cotidiana.
e eu comecei esse post dizendo que falávamos sobre nossas escolhas… hoje, olhando para a fotografia que fazia enquanto falava com o jean mario, e que agora já está em tons de azul, observo os navegantes… e então começo a ponderar se eles e se nós chegamos mesmo a ter escolha… talvez só tenhamos esse impulso desbravador, essa falta de noção de qual caminho devemos tomar e para qual lugar ele nos levará… e essa
convicção plena de que ainda assim, sem ter certezas nenhumas, navegar é preciso, necessário e vital. e que quanto a isso, se calhar, não temos outra escolha a não ser seguir adiante.

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