definindo o recorte

hoje tive de fazer uma apresentação sobre a pesquisa do mestrado durante uma aula numa disciplina do curso. fiz uma espécie de relato de trajetória em que começava do começo: falei dos primeiros trabalhos que fiz em fotografia e segui uma linha cronológica até meus últimos devaneios. por sorte (deles, azar o meu), minha produção não é assim tão vasta, portanto a apresentação não foi muito extensa (entre apresentação, conversas e perguntas que respondi, foram aproximadamente 1h40). o fato é que o se mostrou necessário é, na leitura dos professores da disciplina (metodologia do trabalho científico), delimitar melhor meu assunto, meu ‘objeto de pesquisa’. é certo que parto das experimentações com pigmentos de plantas e a efemeridade desse uso, no entanto, tenho aberto muitos ‘tentáculos’ e linhas de investigações. o que me foi sinalizado é que o mestrado é muito curto para abraçar tantas frentes. que se eu me fixasse em um dos processos talvez eu pudesse me aprofundar mais e fazer um trabalho mais potente (segundo os professores). ocorre que a cada dia tenho mais convicção que meu trabalho é bastante metalinguístico. estou tranquila de que não tenho fetiches por técnicas e procedimentos, mas que sempre me interesso por processos fotográficos que dialogam com o assunto que estou afim de tratar. e o que tenho percebido no mestrado em específico é que tenho interesse de fazer com que o processo seja a obra. essa inquietude já tinha aparecido nas minhas reflexões no início desse ano (nesse post aqui).

depois da aula vim para a biblioteca encontrar com quem ‘conversar’. um dos livros citados durante a apresentação foi o ‘A arte de descrever. Alpers, Svetlana’, que peguei e dei uma passada de olho rápida. fala sobre pintura holandesa do séc XVII. queria uma conversa mais contemporânea e fui parar (claro!) na Cecília Almeida Salles. dela já tinha lido ‘O gesto inacabado’ durante meu trabalho de conclusão de curso no Senac. agora peguei o ‘Redes de criação’ e me deparei exatamente com um capítulo que chama ‘O processo é a obra’. não poderia ter achado diálogo melhor. ela inicia citando esse maravilhoso texto de Jean-Claude Bernardet. dele, cito os parágrafos abaixo:

“Do que se trata? De apresentar elementos visuais e sonoros, verbais ou não. Esses elementos são justapostos sem que se estabeleçam entre eles inter-relações fixas e precisas. São materiais temáticos ou formais que permitem ao espectador construir conexões.
Aparentemente se solicitaria um trabalho de decifração. De fato, não é o caso, porque não há nenhuma verdade, nenhuma mensagem a ser alcançada por baixo (ou por cima) desses elementos e de suas inter-relações frouxas. Uma certa opacidade estimula o espectador a construir conexões, trabalho que será ainda mais estimulado/estimulante se os materiais apresentados forem heterogêneos, díspares. E isso sem que nunca se chegue a uma conclusão que possa parecer correta ou definitiva. Simplesmente a apresentação dos materiais propõe uma área de atuação ao espectador, cujo trabalho pode lhe proporcionar intensa emoção estética, bem como discursos, falas a respeito. E, como não há conclusão a que chegar, esse relacionamento entre espectador e obra a rigor não tem fim.
O fato de esses elementos não estarem fechados numa narrativa homogênea, coesa e unívoca impede que a linguagem seja instrumentalizada, quer dizer, seja colocada a serviço de outra coisa, tal como um enredo ou uma exposição sobre este ou aquele assunto. O fato de que o discurso não se fecha deixa a linguagem constantemente presente, porque constantemente ela tem que ser observada, interrogada, trabalhada. (…) Fiquemos mais atentos ao trabalho do espectador. Ele observa os elementos dos quais extrai determinadas informações. Estas serão de natureza diversa e não serão as mesmas para todos os espectadores. A partir daí ele vai tentar construir conexões, o que será provavelmente o momento mais denso de sua relação com a obra. Esse momento está evidentemente baseado num pressuposto, o de que os elementos apresentados não são aleatórios. De alguma forma, o espectador busca uma lógica entre eles, busca uma unidade, a qual não será encontrada, e o caráter disperso dos elementos permanece. Portanto seu trabalho, a rigor, não encontra fim, ele se dá num terreno movediço e se reveste sempre de um caráter hipotético e pode sempre se renovar. Se o momento importante do trabalho, após a observação, sempre renovada, dos elementos consiste em construir conexões, podemos dizer que a área mais produtiva para o espectador não são os elementos em si, mas a potencialidade existente entre eles.”

quando li esse texto, voltei a acreditar que meu caminho atual (o de abrir várias frentes de pesquisa – anthotypes, desenho ‘científicos’ a partir de câmara lúcida, lâminas de microscópio, fotos microscópicas, etc) podem funcionar como uma instalação que mostra desdobramentos e representações diversas, e que se isso for apresentado como uma instalação, um gabinete de curiosidades, podem estimular o espectador a fazer essas conexões todas que eu mesma tenho feito (e mais outras que ele venha a imaginar)…

pareço estar trilhando um caminho possível…

 

 

Anúncios

conceitos fundamentais

No dia 3/8 abrimos nossa exposição ‘sorte revelada, descaminhos e descobertas’ na GAIA (Galeria de Artes do Instituto de Artes) da Unicamp. A data da abertura da exposição foi pensada de modo a coincidir com o dia em que Philippe Dubois faria, no mesmo local, uma aula inaugural do semestre. Ele apresentou o trabalho de Paolo Gioli, que tem uma produção em fotografia e cinema de modo a utilizar e subverter técnicas de captura de imagens analógicas.

Achei especialmente interessante a forma como Philippe fez a palestra organizando sua fala a partir de alguns pontos conceituais fundamentais no trabalho de Gioli (cisão, expansão, superfície, corpo, obturador, contato, gesto, áptica). Fiz algumas anotações durante a aula que seguem abaixo.

Cisão

Não existe imagem sem incisão. Fenda, buraco, perfuração. Gesto fundador da imagem.

Expansão

Deixar o elemento correr, formar a imagem, não ter limite. Não há limite da borda do quadro.

Superfície

Qualquer superfície pode servir para conter uma imagem.

Corpo

O corpo também guarda seus próprios líquidos. Gioli mistura suor com os reveladores.

Obturador

Fenda, luva, borboleta como obturador de câmeras artesanais.

Contato

Secreções como matéria prima geradora de imagens.

Gesto

O ato é talvez tão ou mais importante que o resultado. O gesto é essencial. A questão principal no pinhole é o gesto do fotógrafo. Afirmação de Philippe é de que a pinhole é uma imagem performática: o enunciado é um ato. Olhar a imagem é olhar o gesto que a criou, e em alguns casos é ver apenas o gesto que a criou.

Áptica

Característica de perceber através dos olhos aquilo que remete ao ato de tocar. Tocar com os olhos. O contrario da percepção do cego. (La palpation du regard – ildebrand ). Apalpar com o olhar.

Quem quiser ver a palestra, a GAIA fez uma transmissão ao vivo e agora o video está disponível no facebook da GAIA.

Hoje estava olhando para o que tem me interessado e pensando nessa organização que o Philippe fez para analisar o trabalho daquele artista. Fiquei tentando achar o que seriam os pontos fundamentais que orbitam meu processo criativo nesse trabalho que estou pesquisando no mestrado. Rabisquei os seguintes itens:

  • arte e ciência – interesse por técnicas pré-fotográficas e fotográficas do século XIX. fotografia e ciência se esbarravam (projeção de imagens – estudos físicos, ópticos). Talbot, Herschel, Atkins, cientistas investigando capturas e fixação de imagens nos século XIX. desenho fotogênico (fotogramas de Talbot e Anna Atkins), câmara lúcida (desenhos botânicos) e anthotypes (Herschel a partir de estudos da ação dos raios de luz nos sumos vegetais, de Madame Sommerville).
  • contato – fricção entre representação e seu referente. desenho a partir de câmara lúcida – uso de pigmento da própria planta para colorizar seu desenho. anthotypes feitos com pigmentos de plantas, usando exsicata da mesma planta como matriz.
  • matéria prima – investigação daquilo que é o essencial para a produção das imagens (no caso do anthotype, os pigmentos dentro das células vegetais)
  • imagem científica (flerte com a biologia botânica) – registros microscópicos de células vegetais, exsicatas, ‘ilustração botânica’.
  • gesto – o gestual importa para a gênese da imagem. o atrito para produção do pigmento para o anthotype. o procedimento ‘cirúrgico’ de ‘dissecação’ para a composição das lâminas microscópicas.
  • tempo – tempo como matéria prima do fotógrafo. tanto o tempo que faz quanto o tempo que passa. sol é a luz que sensibiliza o anthotype. o tempo de exposição varia de acordo com a planta utilizada, a estação do ano, a incidência de luz no material fotossensível.
  • imagem efêmera, imagem orgânica – apagamento e transformação na matéria prima. (anthotypes, desenhos colorizados com pigmentos vegetais, lâminas de microscópio, yeastogram).

Bem, isso também tem intenção de ser uma nota mental, para organizar minhas reflexões sobre o que ando produzindo e aquilo que tenho interesse em experimentar num futuro breve.  Continuar a ler

subvertendo procedimentos e materiais

aprendi em maio, com a professora Sandra Guerreiro (I.B. Unicamp), a preparar corretamente as lâminas histológicas de cortes vegetais. ela também me indicou a leitura de um livro de técnicas e procedimentos que li com entusiasmo. no final de semana passado produzi algumas lâminas com cortes histológicos vegetais para observação e registro ao microscópio. 



no momento em que comecei a colocar os cortes nas lâminas, me flagrei fazendo algo nada ‘científico’. um desejo de criar composições visuais me fez pensar em como de fato eu já começo a subverter as funções daqueles materiais. se cientificamente o ideal é ter poucos e mais finos e planos cortes, do meu ponto de vista, criar alguma sobreposição, o corte não estar exatamente o mais paralelo possível pode criar algumas instigantes diferenças de planos de foco quando observado ao microscópio. a observação microscópica não prevê essas ilusões ópticas de perspectiva, o ideal é que tudo esteja no mesmo plano afim de ter foco em toda a extensão da imagem visualizada. outra técnica que me foi apresentada no I.B. foi a do uso de gelatina como veículo para que as lâminas sejam semi-permanentes. fiz algumas experiências. gelatina é um material familiar para quem lida com processos fotográficos do séc xix, mas ela demora demasiado para secar quando entre os vidros… talvez tenha sobrado ansiedade, ou só faltado um pouco mais de tempo mesmo (esse recurso finito e valiosíssimo no meu momento atual). no mesmo dia eu quis preparar as lâminas e já fazer alguns registros ao microscópio para aproveitar a intensidade das cores dos pigmentos. não funcionou. deixei as lâminas com gelatina ‘endurecerem’ na geladeira, mas ao retirar os prendedores que faziam a pressão para manter tudo em contato, várias bolhas de ar se formaram entre a lâmina, lamínula e gelatina. voltei ao meu procedimento ‘errado’: usar esmalte incolor para fixar e selar tudo. ele certamente não é o melhor veículo, pois reage com os vegetais (osmose, diluição do pigmento entre outras interações) e talvez cause algum desvio na luz do microscópio. do ponto de vista biológico não é adequado, mas do ponto de vista visual me pareceu uma escolha prudente, consegui fazer a fotos no mesmo dia. não sei a longo prazo como esse material se deteriorará, mas para essas minhas primeiras capturas tem oferecido resultados bastante satisfatórios. outro método pouco científico tem sido usar partes grandes das plantas deixando pouca área sem material entre a lâmina e lamínula.

talvez eu tente utilizar bálsamo do Canadá, mas por agora, aceito que o que tenho feito já deixou de ser lâminas com cortes histológicos vegetais como a ciência prevê. sigo criando composições visuais com pequenos fragmentos vegetais sobre estreitas lâminas de vidro. e tem sido encantador e divertido observá-las.

 

desenho do não ver

na semana passada participei de parte de um workshop de dança/performance (‘aproximar corpos e coisas’, com Renan Marcondes). o primeiro exercício era uma espécie de reconhecimento de estruturas (muscular e óssea) tendo como ponto de partida tatear, apalpar e massagear o corpo do outro e depois ser (apalpada, tateada e massageada) o objeto de estudo do outro. como o workshop era para ‘aproximar corpos e coisas’ trabalhamos também com a ideia de força e gravidade, em alguns momentos servindo mesmo como ‘rolo compressor’, ao soltar nosso peso sobre o corpo do outro. a segunda parte da atividade consistia em fazer uma espécie de transcrição. explico: com a mão esquerda tateávamos a coluna da pessoa e com a mão direita fazíamos um desenho cego com lápis sobre papel, traduzindo visualmente a sensação tátil da mão oposta. gostaria muito de desenhar mais assim, é uma experiência de desenho ‘de observação’ e de anatomia bem interessante. 


fiquei pensando em como desenhar com a câmara lúcida também é um pouco como fazer desenho cego. parece contraditório mas ao olhar a imagem projetada através da tela vê-se pouco o traço que está sendo desenhado. e tenho cada vez mais ‘aberto mão’ de desviar o olhar da projeção para ver o traço feito no papel, prefiro me concentrar em ‘tatear’ as linhas de contornos da imagem projetada usando a ponta da caneta, do lápis ou do pincel. voltando ao curso, o que seguiu foram alguns experimentos de contato improvisação, um tipo de dança mínima em que os corpos se encontram e esse encontro promove um movimento. o interessante desse improviso é que hora seu corpo intuitivamente propõe a ação, hora é conduzido. esses movimentos deixam muito claro tendências e velhos hábitos, é só estar atento e ouvir o que o corpo diz (às vezes sussurrando, outras aos gritos). tive pena de não poder acompanhar o dia seguinte do workshop, que sem dúvidas me forneceria mais insights. 

durante toda vida eu aprendi a subestimar o quando posso me perceber/entender durante atividades físicas/corporais. atualmente eu tenho notado que uma auto-análise de como meu corpo se comporta durante uma aula de natação ou de dança é mais eficiente para me dar pistas sobre mim do que horas de conversa na psicanálise. tem dias que acho que eu devia ouvir mais o que meu corpo tem a dizer…

para já, essa vivência me fez sentir vontade de voltar aos desenhos com câmara lúcida. talvez eu devesse encarar esses desenhos como uma atividade física a ser repetida, com regularidade e disciplina. vou tentar.

preservar

uma das perguntas que mais me fazem a respeito dos anthotypes é como se preserva a imagem. tenho interesse no apagamento como parte expressiva do processo. entendo que se trata de uma característica técnica que é um atributo dela e que faz parte da sintaxe desse procedimento e desse resultado. entendo o apagamento como parte narrativa e não como defeito. vejo beleza e potencial nesse aspecto do anthotype. de qualquer modo, é uma pergunta muito recorrente. recentemente foi publicado no blog alternative photography, organizado pela mailin fabbri, um processo descoberto por uma portuguesa (barbara morais) para preservar imagens diretamente sobre as folhas. apesar de ser de uma portuguesa, o artigo está em inglês, e o link para lê-lo é esse aqui.

o atrito como forma de produção de imagens fotográficas

O fotograma é o registro da pura sombra do contorno do objeto. Representaria, portanto, o ponto de partida. Seria possível afirmar que sua leitura é mais imediata e direta? Os rastros diretos são mais fáceis de interpretar do que os diferidos?‘ Fontcuberta, em ‘O beijo de Judas‘, discorre sobre a fricção com o referente que é o fotograma. E eu aqui pensando ainda em usar o pigmento vegetal como matéria sensível, criando uma outra fricção anterior. O atrito como forma de produção de imagens fotográficas. Me sinto tal qual homem primitivo criando fagulhas. 

sobre inquietudes

Nessa semana estive procurando e lendo textos sobre a história da fotografia que trouxessem sua relação intrínseca com a ciência no momento de sua descoberta. Minha revolta foi imensa ao me deparar com textos referenciados em aulas da graduação e pós-graduação que apresentavam não só erros históricos como incoerências e contradições entre um parágrafo e outro. Postei nas redes sociais as imagens das paginas em que eu sinalizava as contradições encontradas e muitos fotógrafos ficaram bastante inconformados e incrédulos quando eu mencionei a fonte. 


Aconteceu que nesse espaço de diálogo que o blog e as redes sociais tem sido para o processo do mestrado, um colega pesquisador me convidou a ler um post que ele tinha escrito a propósito de uma visita feita ao Musée Nicéphore Niépce. Na postagem ele faz uma digressão enorme em que discorre sobre a descoberta da fotografia e do porquê dela não ter acontecido 3 séculos antes, já que tanto a sensibilidade da prata quanto a câmara obscura já eram conceitos conhecidos. Ele falou exatamente sobre o que eu procurava (e que não achei nos livros): o que fez com que a fotografia pudesse existir foi a transformação da ideia de natureza. e pela reflexão que ele faz, a fotografia só seria possível (e necessária) a partir do Iluminismo. 
Recomendo muito a leitura do post do Wagner Lungov, que me fez ganhar o dia de hoje: clica aqui.