conceitos fundamentais

No dia 3/8 abrimos nossa exposição ‘sorte revelada, descaminhos e descobertas’ na GAIA (Galeria de Artes do Instituto de Artes) da Unicamp. A data da abertura da exposição foi pensada de modo a coincidir com o dia em que Philippe Dubois faria, no mesmo local, uma aula inaugural do semestre. Ele apresentou o trabalho de Paolo Gioli, que tem uma produção em fotografia e cinema de modo a utilizar e subverter técnicas de captura de imagens analógicas.

Achei especialmente interessante a forma como Philippe fez a palestra organizando sua fala a partir de alguns pontos conceituais fundamentais no trabalho de Gioli (cisão, expansão, superfície, corpo, obturador, contato, gesto, áptica). Fiz algumas anotações durante a aula que seguem abaixo.

Cisão

Não existe imagem sem incisão. Fenda, buraco, perfuração. Gesto fundador da imagem.

Expansão

Deixar o elemento correr, formar a imagem, não ter limite. Não há limite da borda do quadro.

Superfície

Qualquer superfície pode servir para conter uma imagem.

Corpo

O corpo também guarda seus próprios líquidos. Gioli mistura suor com os reveladores.

Obturador

Fenda, luva, borboleta como obturador de câmeras artesanais.

Contato

Secreções como matéria prima geradora de imagens.

Gesto

O ato é talvez tão ou mais importante que o resultado. O gesto é essencial. A questão principal no pinhole é o gesto do fotógrafo. Afirmação de Philippe é de que a pinhole é uma imagem performática: o enunciado é um ato. Olhar a imagem é olhar o gesto que a criou, e em alguns casos é ver apenas o gesto que a criou.

Áptica

Característica de perceber através dos olhos aquilo que remete ao ato de tocar. Tocar com os olhos. O contrario da percepção do cego. (La palpation du regard – ildebrand ). Apalpar com o olhar.

Quem quiser ver a palestra, a GAIA fez uma transmissão ao vivo e agora o video está disponível no facebook da GAIA.

Hoje estava olhando para o que tem me interessado e pensando nessa organização que o Philippe fez para analisar o trabalho daquele artista. Fiquei tentando achar o que seriam os pontos fundamentais que orbitam meu processo criativo nesse trabalho que estou pesquisando no mestrado. Rabisquei os seguintes itens:

  • arte e ciência – interesse por técnicas pré-fotográficas e fotográficas do século XIX. fotografia e ciência se esbarravam (projeção de imagens – estudos físicos, ópticos). Talbot, Herschel, Atkins, cientistas investigando capturas e fixação de imagens nos século XIX. desenho fotogênico (fotogramas de Talbot e Anna Atkins), câmara lúcida (desenhos botânicos) e anthotypes (Herschel a partir de estudos da ação dos raios de luz nos sumos vegetais, de Madame Sommerville).
  • contato – fricção entre representação e seu referente. desenho a partir de câmara lúcida – uso de pigmento da própria planta para colorizar seu desenho. anthotypes feitos com pigmentos de plantas, usando exsicata da mesma planta como matriz.
  • matéria prima – investigação daquilo que é o essencial para a produção das imagens (no caso do anthotype, os pigmentos dentro das células vegetais)
  • imagem científica (flerte com a biologia botânica) – registros microscópicos de células vegetais, exsicatas, ‘ilustração botânica’.
  • gesto – o gestual importa para a gênese da imagem. o atrito para produção do pigmento para o anthotype. o procedimento ‘cirúrgico’ de ‘dissecação’ para a composição das lâminas microscópicas.
  • tempo – tempo como matéria prima do fotógrafo. tanto o tempo que faz quanto o tempo que passa. sol é a luz que sensibiliza o anthotype. o tempo de exposição varia de acordo com a planta utilizada, a estação do ano, a incidência de luz no material fotossensível.
  • imagem efêmera, imagem orgânica – apagamento e transformação na matéria prima. (anthotypes, desenhos colorizados com pigmentos vegetais, lâminas de microscópio, yeastogram).

Bem, isso também tem intenção de ser uma nota mental, para organizar minhas reflexões sobre o que ando produzindo e aquilo que tenho interesse em experimentar num futuro breve.  Continuar a ler

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subvertendo procedimentos e materiais

aprendi em maio, com a professora Sandra Guerreiro (I.B. Unicamp), a preparar corretamente as lâminas histológicas de cortes vegetais. ela também me indicou a leitura de um livro de técnicas e procedimentos que li com entusiasmo. no final de semana passado produzi algumas lâminas com cortes histológicos vegetais para observação e registro ao microscópio. 



no momento em que comecei a colocar os cortes nas lâminas, me flagrei fazendo algo nada ‘científico’. um desejo de criar composições visuais me fez pensar em como de fato eu já começo a subverter as funções daqueles materiais. se cientificamente o ideal é ter poucos e mais finos e planos cortes, do meu ponto de vista, criar alguma sobreposição, o corte não estar exatamente o mais paralelo possível pode criar algumas instigantes diferenças de planos de foco quando observado ao microscópio. a observação microscópica não prevê essas ilusões ópticas de perspectiva, o ideal é que tudo esteja no mesmo plano afim de ter foco em toda a extensão da imagem visualizada. outra técnica que me foi apresentada no I.B. foi a do uso de gelatina como veículo para que as lâminas sejam semi-permanentes. fiz algumas experiências. gelatina é um material familiar para quem lida com processos fotográficos do séc xix, mas ela demora demasiado para secar quando entre os vidros… talvez tenha sobrado ansiedade, ou só faltado um pouco mais de tempo mesmo (esse recurso finito e valiosíssimo no meu momento atual). no mesmo dia eu quis preparar as lâminas e já fazer alguns registros ao microscópio para aproveitar a intensidade das cores dos pigmentos. não funcionou. deixei as lâminas com gelatina ‘endurecerem’ na geladeira, mas ao retirar os prendedores que faziam a pressão para manter tudo em contato, várias bolhas de ar se formaram entre a lâmina, lamínula e gelatina. voltei ao meu procedimento ‘errado’: usar esmalte incolor para fixar e selar tudo. ele certamente não é o melhor veículo, pois reage com os vegetais (osmose, diluição do pigmento entre outras interações) e talvez cause algum desvio na luz do microscópio. do ponto de vista biológico não é adequado, mas do ponto de vista visual me pareceu uma escolha prudente, consegui fazer a fotos no mesmo dia. não sei a longo prazo como esse material se deteriorará, mas para essas minhas primeiras capturas tem oferecido resultados bastante satisfatórios. outro método pouco científico tem sido usar partes grandes das plantas deixando pouca área sem material entre a lâmina e lamínula.

talvez eu tente utilizar bálsamo do Canadá, mas por agora, aceito que o que tenho feito já deixou de ser lâminas com cortes histológicos vegetais como a ciência prevê. sigo criando composições visuais com pequenos fragmentos vegetais sobre estreitas lâminas de vidro. e tem sido encantador e divertido observá-las.

 

desenho do não ver

na semana passada participei de parte de um workshop de dança/performance (‘aproximar corpos e coisas’, com Renan Marcondes). o primeiro exercício era uma espécie de reconhecimento de estruturas (muscular e óssea) tendo como ponto de partida tatear, apalpar e massagear o corpo do outro e depois ser (apalpada, tateada e massageada) o objeto de estudo do outro. como o workshop era para ‘aproximar corpos e coisas’ trabalhamos também com a ideia de força e gravidade, em alguns momentos servindo mesmo como ‘rolo compressor’, ao soltar nosso peso sobre o corpo do outro. a segunda parte da atividade consistia em fazer uma espécie de transcrição. explico: com a mão esquerda tateávamos a coluna da pessoa e com a mão direita fazíamos um desenho cego com lápis sobre papel, traduzindo visualmente a sensação tátil da mão oposta. gostaria muito de desenhar mais assim, é uma experiência de desenho ‘de observação’ e de anatomia bem interessante. 


fiquei pensando em como desenhar com a câmara lúcida também é um pouco como fazer desenho cego. parece contraditório mas ao olhar a imagem projetada através da tela vê-se pouco o traço que está sendo desenhado. e tenho cada vez mais ‘aberto mão’ de desviar o olhar da projeção para ver o traço feito no papel, prefiro me concentrar em ‘tatear’ as linhas de contornos da imagem projetada usando a ponta da caneta, do lápis ou do pincel. voltando ao curso, o que seguiu foram alguns experimentos de contato improvisação, um tipo de dança mínima em que os corpos se encontram e esse encontro promove um movimento. o interessante desse improviso é que hora seu corpo intuitivamente propõe a ação, hora é conduzido. esses movimentos deixam muito claro tendências e velhos hábitos, é só estar atento e ouvir o que o corpo diz (às vezes sussurrando, outras aos gritos). tive pena de não poder acompanhar o dia seguinte do workshop, que sem dúvidas me forneceria mais insights. 

durante toda vida eu aprendi a subestimar o quando posso me perceber/entender durante atividades físicas/corporais. atualmente eu tenho notado que uma auto-análise de como meu corpo se comporta durante uma aula de natação ou de dança é mais eficiente para me dar pistas sobre mim do que horas de conversa na psicanálise. tem dias que acho que eu devia ouvir mais o que meu corpo tem a dizer…

para já, essa vivência me fez sentir vontade de voltar aos desenhos com câmara lúcida. talvez eu devesse encarar esses desenhos como uma atividade física a ser repetida, com regularidade e disciplina. vou tentar.

preservar

uma das perguntas que mais me fazem a respeito dos anthotypes é como se preserva a imagem. tenho interesse no apagamento como parte expressiva do processo. entendo que se trata de uma característica técnica que é um atributo dela e que faz parte da sintaxe desse procedimento e desse resultado. entendo o apagamento como parte narrativa e não como defeito. vejo beleza e potencial nesse aspecto do anthotype. de qualquer modo, é uma pergunta muito recorrente. recentemente foi publicado no blog alternative photography, organizado pela mailin fabbri, um processo descoberto por uma portuguesa (barbara morais) para preservar imagens diretamente sobre as folhas. apesar de ser de uma portuguesa, o artigo está em inglês, e o link para lê-lo é esse aqui.

o atrito como forma de produção de imagens fotográficas

O fotograma é o registro da pura sombra do contorno do objeto. Representaria, portanto, o ponto de partida. Seria possível afirmar que sua leitura é mais imediata e direta? Os rastros diretos são mais fáceis de interpretar do que os diferidos?‘ Fontcuberta, em ‘O beijo de Judas‘, discorre sobre a fricção com o referente que é o fotograma. E eu aqui pensando ainda em usar o pigmento vegetal como matéria sensível, criando uma outra fricção anterior. O atrito como forma de produção de imagens fotográficas. Me sinto tal qual homem primitivo criando fagulhas. 

sobre inquietudes

Nessa semana estive procurando e lendo textos sobre a história da fotografia que trouxessem sua relação intrínseca com a ciência no momento de sua descoberta. Minha revolta foi imensa ao me deparar com textos referenciados em aulas da graduação e pós-graduação que apresentavam não só erros históricos como incoerências e contradições entre um parágrafo e outro. Postei nas redes sociais as imagens das paginas em que eu sinalizava as contradições encontradas e muitos fotógrafos ficaram bastante inconformados e incrédulos quando eu mencionei a fonte. 


Aconteceu que nesse espaço de diálogo que o blog e as redes sociais tem sido para o processo do mestrado, um colega pesquisador me convidou a ler um post que ele tinha escrito a propósito de uma visita feita ao Musée Nicéphore Niépce. Na postagem ele faz uma digressão enorme em que discorre sobre a descoberta da fotografia e do porquê dela não ter acontecido 3 séculos antes, já que tanto a sensibilidade da prata quanto a câmara obscura já eram conceitos conhecidos. Ele falou exatamente sobre o que eu procurava (e que não achei nos livros): o que fez com que a fotografia pudesse existir foi a transformação da ideia de natureza. e pela reflexão que ele faz, a fotografia só seria possível (e necessária) a partir do Iluminismo. 
Recomendo muito a leitura do post do Wagner Lungov, que me fez ganhar o dia de hoje: clica aqui.

materia prima

em maio fui ao laboratório para descobrir como registrar fotogramas (sem o uso de câmera) em placa úmida de colódio. tinha visto algumas imagens da artista Nadezda Nikolova-Kratzee e me interessado, sem saber muito bem como solucionar a possível abrasão do material fotossensível ao colocar os objetos em contato direto com a placa úmida. o roger sassaki intuía que o melhor seria colocar algum plástico entre a colódio e o objeto a ser registrado. fiz uma colheita de pequenos ‘matinhos’ no quintal da casa ranzini e fui ao laboratório. nas primeiras tentativas entendi que o plástico resolvia a abrasão sem comprometer a nitidez: ok, mistério resolvido. as imagens vinham nítidas. e limpas. tão limpas que me incomodavam… queria sujá-las, mas sem comprometer os banhos químicos que seriam usados por outros integrantes do grupo… portanto, só poderia ‘salpicar’ materiais químicos que faziam parte do processo: sais variados. e segui experimentando com vários sais. até que ao revelar uma placa em que eu tinha ‘polvilhado’ sal de cozinha (NaCl) notei uma precipitação metálica sobre a placa. o sal, em muitos pontos ‘dissolvia’ a emulsão de colódio, mas em alguns pontos reagia formando padrões que pareciam cristais de gelo/neve ou estruturas de algas marinhas. fiquei surpresa e encantada com esse ‘acaso, e bastante intrigada com a reação. não conseguia pensar em outra coisa e em como meu trabalho precisaria dar visibilidade ao trajeto pelo qual eu tinha passado. estava com a visita ao museu do jardim botânico muito vívida na memória e todos aqueles frascos com essências… pensei que eu poderia criar um microambiente, uma mini narrativa metafórica das etapas para a produção daquele fotograma  ‘incluindo’ dessa forma o processo na obra final a ser exposta. 

pesquisa de vidrarias

Miniatura escolhida

 

o importante seria não fazer uma mera explicação didática, mas criar uma mensagem cifrada, um jogo de adivinhação (ou de imaginação), uma ficção em torno do processo. coloquei cada elemento químico em um pequeno frasco (talqual no museu) e fique estudando disposições e narrativas poéticas. 


me lembrei que as ilustrações da alquimia trazem sempre palavras manuscritas em latim sobre as etapas do processo alquímico e julguei que seria um paralelo interessante, já que se tratava também de um processo de precipitação dourada.


nem é necessário dizer que não sei latim, mas eu também não tinha nenhum compromisso com a realidade. ataquei de ‘google translator’. associei cada conjunto de sais a uma descrição e a uma ação. exercício divertido e curioso era colocar a palavra em português, pedir a tradução para em seguida colocar o conteúdo traduzido para o latim e pedir a correspondência em português novamente. ex. verniz=fucis gestat=ela usa disfarces.

estudos para textos em latim

afinal incluí também a exsicata do trevo usado no fotograma (oxalis latifolia), uma mini prensa (como a que biológos usam quando recolhem espécimes em campo), uma lupa e uma caixa de fósforos. 



só faltava colocar tudo isso numa caixa. algo como a maleta do cientista. para fixar os pequenos textos manuscritos usei minha ‘estética de insetário’ (tudo espetado com alfinete). a princípio julguei que deixaria o trabalho interativo, as pessoas poderiam pegar a lupa, ver tudo de pertinho… mas afinal entendi que a lupa tinha mais a finalidade representativa (junto com os fósforos, representaria o ampliador utilizado). todos esses quimicos expostos me fizeram mudar de ideia quanto à interação no último minuto. fechei as tampas com vidro.

no final de semana da abertura da exposição ‘sorte revelada’ fiz uma demonstração pública da técnica dentro da programação integrada do evento.

demonstração pública da técnica de fotogramas sobre placa úmida de colódio no laboratório Imagineiro na casa Ranzini.

o que foi mostrado na exposição ‘sorte revelada’ é o que se vê a seguir. 

e em agosto a exposição itinera para o GAIA (Galeria de Arte do Instituto de Artes) da Unicamp e poderá ser vista ao vivo e de pertinho entre 3/8 a 11/9/17.