o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca

no dia da qualificação, a professora luise weiss trouxe uma série de referências bibliográficas que anotei. e só agora, meses depois, retomei. ouvi novamente a gravação do dia da qualificação semana passada. entre os texto citados, tinha um sobre experiência (Notas sobre a experiência e o saber de experiência, de  Larrosa Bondía).

nele, larrosa discorre sobre como a informação é o quase o oposto da experiência. experiência é em espanhol, “o que nos passa”; em português se diria que a experiência é “o que nos acontece”; em francês a experiência seria “ce que nous arrive”; em italiano, “quello che nos succede” ou “quello che nos accade”; em inglês, “that what is happening to us”; em alemão, “was mir passiert”. A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece.’

Já no mundo da informação, segundo ele explana ‘o sujeito da informação sabe muitas coisas, passa seu tempo buscando informação, o que mais o preocupa é não ter bastante informação; cada vez sabe mais, cada vez está melhor informado, porém, com essa obsessão pela informação e pelo saber, o que consegue é que nada lhe aconteça. Em segundo lugar, a experiência é cada vez mais rara por excesso de opinião. O sujeito moderno é um sujeito informado que, além disso, opina. É alguém que tem uma opinião supostamente pessoal e supostamente própria e, às vezes, supostamente crítica sobre tudo o que se passa, sobre tudo aquilo de que tem informação. Para nós, a opinião, como a informação, converteu-se em um imperativo. Em nossa arrogância, passamos a vida opinando sobre qualquer coisa sobre que nos sentimos informados. E se alguém não tem opinião, se não tem uma posição própria sobre o que se passa, se não tem um julgamento preparado sobre qualquer coisa que se lhe apresente, sente-se em falso, como se lhe faltasse algo essencial. E pensa que tem de ter uma opinião. Depois da informação, vem a opinião. No entanto, a obsessão pela opinião também anula nossas possibilidades de experiência, também faz com que nada nos aconteça. (…) ‘ experiência é cada vez mais rara, por falta de tempo. Tudo o que se passa passa demasiadamente depressa, cada vez mais depressa. E com isso se reduz o estímulo fugaz e instantâneo, imediatamente substituído por outro estímulo ou por outra excitação igualmente fugaz e efêmera. O acontecimento nos é dado na forma de choque, do estímulo, da sensação pura, na forma da vivência instantânea, pontual e fragmentada. A velocidade com que nos são dados os acontecimentos e a obsessão pela novidade, pelo novo, que caracteriza o mundo moderno, impedem a conexão significativa entre acontecimentos. Impedem também a memória, já que cada acontecimento é imediatamente substituído por outro que igualmente nos excita por um momento, mas sem deixar qualquer vestígio. O sujeito moderno não só está informado e opina, mas também é um consumidor voraz e insaciável de notícias, de novidades, um curioso impenitente, eternamente insatisfeito. Quer estar permanentemente excitado e já se tornou incapaz de silêncio. Ao sujeito do estímulo, da vivência pontual, tudo o atravessa, tudo o excita, tudo o agita, tudo o choca, mas nada lhe acontece. Por isso, a velocidade e o que ela provoca, a falta de silêncio e de memória, são também inimigas mortais da experiência. ‘

impossível eu ler esse texto e não conectar essa fala a uma impressão que venho tendo em relação a algumas atividades que faço com imagens. tenho refletido um pouco nessa comparação entre imagens para o instagram e as experiências com pigmentos de plantas. isso por dois motivos: pelo tempo que leva para ser feito e para ser apagado. sinceramente, tenho dúvidas quanto o que é de fato mais efêmero. atualmente existem no instagram as tais das historias, um registro que se cria e se apaga em 24h. é uma informação feita para durar pouco e desaparecer sem rastros no dia seguinte. é um lugar para incluir informação sem memória. já faz parte de minhas rotinas diárias fazer esse circuito: instagram-facebook-messenger e mal ele encerra, novamente o reinicio, nesse circulo vicioso motivado pela sede de informações.  tudo acontece de forma muito veloz: a produção da informação (ou das imagens) e o apagamento dela. quando comparo o tempo que levo para a produção de imagens em anthotypes, acredito que a duração do experimento (macerar a planta, retirar seu sumo, filtrá-lo, depositá-lo papel, secá-lo, colocá-lo na contateira, deixá-lo ao sol durante dias e observar enquanto o pigmento desbota), me fornece tempo para que algo me ocorra durante o processo. me coloco aberta e à disposição para tudo aquilo que a experiência me propicia.

‘Se escutamos em espanhol, nessa língua em que a experiência é “o que nos passa”, o sujeito da experiência seria algo como um território de passagem, algo como uma superfície sensível que aquilo que acontece afeta de algum modo, produz alguns afetos, inscreve algumas marcas, deixa alguns vestígios, alguns efeitos. Se escutamos em francês, em que a experiência é “ce que nous arrive”, o sujeito da experiência é um ponto de chegada, um lugar a que chegam as coisas, como um lugar que recebe o que chega e que, ao receber, lhe dá lugar. E em português, em italiano e em inglês, em que a experiência soa como “aquilo que nos acontece, nos sucede”, ou “happen to us”, o sujeito da experiência é sobretudo um espaço onde têm lugar os acontecimentos. Em qualquer caso, seja como território de passagem, seja como lugar de chegada ou como espaço do acontecer, o sujeito da experiência se define não por sua atividade, mas por sua passividade, por sua receptividade, por sua disponibilidade, por sua abertura.’

quando iniciei os processos com os pigmentos de plantas, intencionei registrar todo o procedimento, criar uma espécie de histórico do experimento. quando ofereço as aulas em que ensino esses processos, consigo notar no noutro também a conexão, a mudança de ritmo, que o experimento manual proporciona a quem o realiza. algo acontece. a pessoa se afeta, algo ocorre no indivíduo. larrosa, fala ainda da diferença entre experimento e experiência.

‘Se o experimento é genérico, a experiência é singular. Se a lógica do experimento produz acordo, consenso ou homogeneidade entre os sujeitos, a lógica da experiência produz diferença, heterogeneidade e pluralidade. Por isso, no compartir a experiência, trata-se mais de uma heterologia do que de uma homologia, ou melhor, trata-se mais de uma dialogia que funciona heterologicamente do que uma dialogia que funciona homologicamente. Se o experimento é repetível, a experiência é irrepetível, sempre há algo como a primeira vez. Se o experimento é preditível e previsível, a experiência tem sempre uma dimensão de incerteza que não pode ser reduzida. Além disso, posto que não se pode antecipar o resultado, a experiência não é o caminho até um objetivo previsto, até uma meta que se conhece de antemão, mas é uma abertura para o desconhecido, para o que não se pode antecipar nem “pré-ver” nem “pré-dizer”.’

voltando ao saber da experiência, penso sobre uma pergunta impertinente que a luise colocou e a qual talvez ainda não saiba responder prontamente: qual o sentido de fazer impressões transitórias? a essa questão, eu arriscaria responder (hoje), que o motivador desses experimentos, é estar aberta ao saber que a fazer propicia. talvez, ilusoriamente, imagino que ao lidar com experimentos tão efêmeros, aprenda a lidar com outras situações e contextos de perda. e mesmo observando as cores se apagarem ao sol, consiga vislumbrar a parte que fica daquilo que parte – a experiência, e a memória,  daquilo que foi vivenciado.

 

 

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um retrato para sempre

– Agora, meu neto, me chegue aquele álbum.

Aponta um velho álbum de fotografias pousado na poeira do armário. Era ali que, às escondidas, ela vinha tirar vingança do tempo. Naquele livro a Avó visitava lembranças, doces revivências.

Mas quando o álbum se abre em seu colo eu reparo, espantado, que não há fotografia nenhuma. As páginas de desbotada cartolina estão vazias. Ainda se notam as marcas onde, antes, estiveram coladas fotos.

– Vá. Sente aqui que eu lhe mostro.

Finjo que acompanho, cúmplice da mentira.

– Está a ver aqui seu pai, tão novo, tão clarinho até parece mulato?

E vai repassando as folhas vazias, com aqueles seus dedos sem aptidão, a voz num fio como se não quisesse despertar os fotografados.

– Aqui, veja bem, aqui está sua mãe. E olhe nesta, você, tão pequeninho! Vê como está bonita consigo no colo?

Me comovo, tal é a convicção que deitava em suas visões, a ponto de meus dedos serem chamados a tocar o velho álbum. Mas Dulcineusa corrige-me.

– Não passe a mão pelas fotos que se estragam. Elas são o contrário de nós: apagam-se quando recebem carícias.

Mia Couto, em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (São Paulo: companhia das letras, 2003).

quando começamos a pensar na programação integrada à exposição ‘ano do cão’, sugeri ao roger sassaki propor uma atividade motivada por duas coisas que presenciei acompanhando seu serviço de retrato usando placa úmida de colódio. uma delas foi a ação realizada no lançamento da revista zum em 2016. fizemos muitas fotos naquele dia e pra além dos retratos individuais, as pessoas queriam mesmo era fazer foto de casal. naquela ocasião, a iluminação que carregamos até a biblioteca mario de andrade funcionava melhor para retratos singulares, e explicávamos isso para o público, mas nenhuma justificativa persuadia os casais a mudarem de ideia. a outra situação aconteceu durante o festival valongo de 2017, quando o roger levou toda a sua parafernália para fazer foto em frente ao museu Pelé, onde aconteciam as palestras do evento. uma coisa me marcou muito aquele dia. um retratado estava muito curioso para saber quanto tempo duraria aquele retrato que fazíamos dele com sua amada. o fato é que em tempos de relacionamentos líquidos, aquele interesse quase impertinente chamou minha atenção. quando pensamos em ambrótipos, é importante lembrarmos que estamos lidando com materiais bastante estáveis: prata e vidro. àquela pergunta o roger deu uma resposta ainda mais constrangedora: ‘é possível que esse retrato dure mais do que a memória de seus familiares a seu respeito’. e essa resposta, assim, afiada mereceu uma explicação, já que a cara do casal foi de dúvida e assombro. ele completou que as fotos em ambrótipo costumam ‘durar tanto tempo intactas que muitas vezes passam de geração a geração até que os familiares que a possuem já não conseguem identificar os parentes naquela imagem’. de fato, é comum que as imagens antigas, já desprovidas de nome e sobrenome, acabem parando numa grande caixa nos mercados de pulgas onde uma infinidade de anônimos se amontoam. tem uma série de artistas contemporâneos que se ocupam de colecionar esse tipo de imagens e contar novas histórias dos retratados, ficcionando sobre quem fossem/sejam eles.

não sei se é desejo inconsciente, mas essa vontade do casal ser registrado em placa úmida parece ter algum fundamento na permanência. o fato é que estamos falando de uma imagem muito durável. um retrato para sempre. tão inabalável quando gostaríamos que fosse um relacionamento quando estamos realmente apaixonados. e nem sempre é, mas naquele pedacinho de vidro há cabimento para essa vontade.

e assim, no meio dessas reflexões, chegamos a essa atividade: um retrato para sempre.

vai rolar na casa ranzini, dia 9/6, das 11h às 16h. pode (e é desejável) toda configuração possível de casais. infelizmente, poliamor ficará com iluminação um pouco prejudicada, mas mesmo assim, é possível também. o resultado é uma jóia como essas:

roger sassaki e simone wicca em mini-ambrótipo

beth lee e edison angeloni em mini-ambrótipo

venha. traga seu amor.

informações:

um retrato para sempre

o que: fotos de casal em placa úmida de colódio

quanto:

  • Mini-ambrótipo R$120,00
  • Ferrótipo (metal 10x12cm) R$200
  • Ambrótipo (vidro 10x12cm) R$250

quando: dia 9/6/18, das 11h às 16h.

onde:

casa ranzini | imagineiro

rua santa luzia, 31

liberdade – são paulo

bactéria | num meio | é cultura

ontem abrimos mais uma exposição coletiva de fotógrafos que registram imagens em placa úmida de colódio. é o quarto ano consecutivo desse projeto idealizado pelo roger sassaki.

como sempre, todos os participantes elaboram todas as etapas, desde a definição do tema, a forma como abordá-lo do ponto de vista conceitual e técnico, passando pela disposição dos trabalhos no espaço, montagens, iluminação, comunicação visual e programação integrada.

no final do ano nos reunimos para pensarmos no tema, e o ano tava encerrando com o gosto amargo e com ar de uma certa desesperança generalizada: o ano tinha sido estranho e a perspectiva do cenário era de eminente piora. no calendário chinês seria o ano do cão, que pra nós brasileiros soa como um ano difícil, mas para os chineses, parece um ano de busca por equilíbrio, um olhar mais positivo.

a partir daí, cada um dos 17 artistas seguiu em busca de lidar com esse tema e produzir imagens.

confesso que o que estava mais latente para mim foram algumas bizarrices que aconteceram no meio cultural. exposições foram canceladas, artistas foram censurados e uma série de incidentes envolvendo o secretário de cultura de são paulo começaram a pipocar na cena e na mídia.

quando pensava sobre isso, uma frase de uma música do arnaldo antunes me vinha a cabeça: ‘bactéria, num meio, é cultura’. meses antes, por conta dos trabalhos com fotografias microscópicas, tinha adquirido também algumas placas de petri (placas para cultura de bactérias, fungos, etc). daí, bem conceitualmente, criei esse trabalho: registraria um retrato do secretário nas placas de petri. para isso, me apropriei de uma fotografia amplamente divulgada dele, trabalhei sobre ela para deixá-la contrastada e imprimi em jato de tinta um positivo caseiro sobre transparência. com essa transferência em mãos, segui para o lab para tentar fazer uma ampliação diretamente sobre as placas de petri (de vidro).

sanadas as dificuldades iniciais (as bordas começaram a levantar, o que foi resolvido com uma cotonetada de albumina na borda do vidro), consegui rapidamente registrar o retrato numa composição com 4 placas e aproximadamente 1 min de exposição à luz do ampliador.

a imagem estava pronta e passei muitos dias pensando na finalização do trabalho, pois o reconhecimento da pessoa não é imediato e queria dar pistas de quem ele fosse, mas não sabia muito bem como fazer…

cheguei à conclusão de que queria continuar o trabalho usando esses elementos laboratoriais e fiz uma visita às lojas de vidraria. adquiri algumas provetas e erlenmeyers de vidro e algumas rolhas de vedação. das reportagens que havia selecionado sobre essa figura pública retirei apenas as ‘aspas’: só depoimentos que ele tinha feito em contextos públicos (como resposta aos ativistas numa reunião ou justificativas de sua postura e conduta quando questionado por entrevistadores dos jornais).

não parece muito certo deixar para o último do minuto, mas a verdade é que um dia antes da abertura, estava eu, finalizando a montagem de meu primeiro trabalho mais ‘ativista’, envolvendo meu pensamento crítico/político. e estava ali, lidando com os mesmos materiais recorrentes nas minhas produções: os vidros, frascos graduados, cortiças, linhas e agulhas, e pequenos textos. justapostas, todas as minhas apropriações: frase-título, retrato-divulgação e citações-aspas.

se quiser ver ao vivo, o resultado estará na Casa Ranzini até 23/junho (mais informações, clique aqui).

hoje, como atividade integrada, resolvi compartilhar esse método de produção de imagem diretamente em placa úmida de colódio sem o uso de câmera, usando como matriz uma impressão positiva em jato de tinta caseira, emulsionando um objeto não bidimensional.

foto: roger sassaki foto: anna silveira

foi divertido. e como apareceram cerca de 20 pessoas para assistir minha demonstração e o lab é pequeno, abri uma sessão extra pra atender quem se interessou, e mesmo no final de semana do cão, conseguiu chegar até a casa ranzini. de uma certa forma, com esse diálogo direto com o público, percebi que apesar de eu dar pistas, é um trabalho bastante conceitual e talvez careça de alguma espécie de mediação.

algo a ser pensado (ou não! rs)…

sobre atravessar a rua…

quando eu mudei pra casa nova devia ter por volta de 4 anos de idade. lembro que na primeira semana, estava em frente de casa e ele apareceu curioso e começamos a brincar. provavelmente ele foi a primeira criança a se aproximar de mim ali na rua. ele morava do outro lado da rua, e tinha um grande canteiro no meio. eu não entendia bem o receio, mas percebia que existia alguma questão na nossa amizade. depois, conforme fui crescendo, entendi. ele morava mesmo em frente a minha casa, onde existia um terreno grande, com várias construções. meus pais chamavam de cortiço. eu não ia para o outro lado da rua. e em poucas ocasiões entrei na sua casa e ele na minha. puxando a memória, também não me lembro de estarmos nós dois e mais outros amigos. nossa amizade era só nossa, não era compartilhada com outros amigos do meu círculo ou do dele. acho que ambos sentíamos em nossas famílias que havia algo implícito de que não deveríamos ser amigos. o fato é que mesmo com essas restrições tácitas, ignoramos todas elas, e mantivemos nossa amizade desde os 4 anos, até por volta dos 19 anos. e nossa amizade passou por vários momentos. uma coisa sempre se repetia. era uma espécie de código não verbal que estabelecemos um com o outro. eu saia, sentava em frente a minha casa, e em questão de minutos, ele aparecia. ficávamos conversando por horas ali na frente. estava aqui pensando em outros contextos de locais em que nos encontrávamos… lembro pouco. lembro de termos ido numa pracinha, na etapa de nossa amizade, na pré-adolescência, em que resolvemos nos beijar algumas vezes. fase que durou pouco tempo, afinal, eu gostava demais dele, ele era bonito a beça, sorriso largo… mas éramos mesmo só amigos. depois me lembro que o máximo que acontecia era conversarmos no canteiro central, espécie de zona neutra. às vezes eu via que ele estava no canteiro, jogando capoeira com seus irmãos e primos, saía para olhar, mas ficava em frente a casa, vendo de longe. um dia, ele veio me procurar, queria me dizer que iria mudar de cidade, morar com uma namorada mais velha que ele tinha conhecido a pouco tempo. nesse dia, conversamos sentados no canteiro central, lembro bem. eu dizia que ele estava sendo precipitado, que precisava pensar melhor se era isso mesmo que ele queria da vida, que eles se conheciam a pouquíssimo tempo para dar esse passo. quase nos beijamos de novo nesse dia e com isso, ele constatou que talvez não estivesse seguro do que estava fazendo. os anos passaram, mudei para são paulo, e mesmo assim, quando ia aos finais de semana, repetia o movimento: sentava em frente a casa e ele surgia sorridente. conversávamos, eu contava minhas novidades, ele contava as dele. lembro de ter atravessado a rua para entrar no cortiço umas duas vezes. uma vez foi quando a avó dele faleceu. Dona Ana era matriarca de toda aquela galera que morava ali. o velório aconteceu dentro da casa dela e eu fui lá abraçá-lo. no final daquele ano conturbado, perto do horário da virada, saí em frente a casa. ele apareceu. na contagem regressiva nos abraçamos chorando muito, torcendo pra que o ano acabasse logo. depois de um tempo, ele me procurou novamente, queria me convidar para o seu casamento. conversamos e ele parecia bastante seguro e feliz. fui no casamento. lembro do olhar de alegria e descrença dele quando me viu. ficou muito feliz com minha presença, me falou que não acreditava que eu iria. falei que estava contente pelo convite, que eu não poderia deixar de participar desse momento importante e que desejava que fossem muito felizes juntos. com o casamento e a chegada dos filhos, ele mudou de casa, e eu também passei a visitar menos a casa dos meus pais. ainda assim, nos vimos algumas vezes por ocasião das festas de fim de ano, quando ele e também eu, visitávamos nossas famílias. um ano fui pra casa dos meus pais e não havia mais o cortiço à frente. venderam o terreno, todos se mudaram. há cerca de 6 anos digitei seu nome no facebook. descobri que tinha virado pastor evangélico. usamos o messenger para contarmos nossas novidades um para o outro de tempos em tempos. ele me falou das viagens nas missões na África, do casamento feliz e duradouro, do amor que superava tudo, dos 4 filhos (ele disse que queria mais! e de fato, depois de nossa última conversa, ele ainda teve mais 1!). e como continuávamos tendo opiniões muito diversas, aproveitávamos pra nos ranhetarmos (que era o que fazíamos de melhor) pelo messenger, e também para eu me divertir criticando sua gramática (uma mania desde a infância). prometemos não discutir religião. nunca mais nos encontramos pessoalmente. hoje (17/5/18) soube que ele faleceu. pelo que entendi, de malária. e eu fiquei aqui, pensando na nossa relação. e fiquei devastada. pensei em como nossa amizade foi um ato de rebeldia, de resistência pelo afeto. há algumas semanas, conversava sobre nossa amizade com alguns amigos e contava como apesar de amar esse amigo, em vários momentos eu fui arrogante, preconceituosa e reproduzi racismo internalizado. quando nos reencontramos no facebook, chegamos a cogitar nos encontrarmos pessoalmente, mas nunca chegamos a agendar de verdade. hoje estou devastada. por que sinto que mesmo a essa altura da vida, me faltou coragem para finalmente atravessar a rua.

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organização e apresentação

pesquisando livros que mencionam sobre gabinetes de curiosidades e contam sobre a história das ciências naturais, fica claro que uma das grandes questões debatidas pelos naturalistas era a classificação: como organizar, descrever e nomear os itens colecionados. a forma de ordenar e classificar os espécimes nortearia a biologia nos anos seguintes. existiam divergências no procedimento de catalogação. no livro ‘as palavras e as coisas’, de foucault, ele menciona o desacordo entre as formas de pesquisa de jonston, aldrovandi e mais adiante, lineu. sobre isso, cito um trecho do livro:

“Quando Jonston escreveu sua História Natural dos Quadrúpedes, saberia ele menos do que Aldrovandi meio século antes? Não muito, afirmam os historiadores. Mas a questão não está aí ou, se se quiser colocar nesses termos, é preciso responder que Jonston sabe a respeito muito menos que Aldrovandi. Este, a propósito de todo animal estudado, desenvolvia, e no mesmo nível, a descrição de sua anatomia e as maneiras de capturá-lo; sua utilização alegórica e seu modo de geração; seu habitat e os templos de suas lendas; sua nutrição e a melhor maneira de torná-lo saboroso. Jonston subdivide seu capítulo sobre o cavalo em 12 rubricas: nome, partes anatômicas, habitação, idades, geração, vozes, movimentos, simpatia e antipatia, utilizações, usos medicinais. Nada disso faltava em Aldrovandi, mas havia muito mais. E a diferença reside nessa falta. (…) A ordem descritiva que Lineu, bem após Jonston proporá à história natural é muito característica. Segundo ele, todo capítulo concernente a um animal qualquer deve ter os seguintes passos: nome, teoria, gênero, espécie, atributos, uso e, para terminar Litteraria. (…) A instauração, na idade clássica, de uma ciência natural não é o efeito direto ou indireto da transferência de uma racionalidade formada alhures. (…) Os documentos dessa história nova não são outras palavras, textos ou arquivos, mas espaços claros onde as coisas se justapõem: herbários, coleções, jardins; o lugar dessa história é um retângulo intemporal, onde, despojados de todo comentário, de todas linguagem circundante, os seres se apresentam uns ao lado dos outros, com suas superfícies visíveis, aproximados segundo seus traços comuns e, com isso, já virtualmente analisados e portadores apenas de seus nomes.”

paralelo a essa pesquisa sobre os gabinetes, sigo pensando na organização da minha produção e pesquisa visual com os pigmentos vegetais. decidi juntar os trabalhos por plantas em vez de juntar por técnica. acho interessante ver todas as visualidades daquele mesmo pigmento lado a lado, para estabelecer essas relações sobre os vários estados daquela matéria (pigmento líquido, desbotado no anthotype, seco na exsicata, etc) e em diferente aproximações (ainda na planta, na lâmina histológica e na imagem vista através do microscópio).

uma outra coisa em que tenho pensado é na desconstrução do móvel ‘gabinete de curiosidades’. ando pensado em abrir o gabinete, no sentido de dispor cada série em uma gaveta, e cada gaveta ‘emoldurar’ a série, fixada na parede. fiz uns esboços e tenho estudado possibilidades ainda a serem desenhadas melhor.

escrevendo esse post me dei conta que no desenho da gaveta, ignorei o desenho ‘científico’ na apresentação. ato falho?

enfim… pesquisa que segue.  🙂

sobre transmutar a dor

ao voltar das férias notei que minha gatinha não estava bem. levei ao veterinário e após alguns exames constatamos que ela estava com problemas renais. a partir daí iniciamos uma saga de internações e visitas quase diárias ao hospital veterinário. fizemos 4 abordagens. a primeira era de internações em dias alternados para soro intravenal, em seguida passamos aos soros subcutâneos com um antibiótico, por fim passamos ao soro subcutâneo diário e eu aprendi a fazer o procedimento em casa. depois de um mês desses tratamentos, sem efeitos laboratoriais, mas com algum conforto e certa estabilidade, ela começou com um quadro de piora e tentamos uma abordagem com corticoide (que não é uma abordagem padrão, mas ela parecia ter desenvolvido uma doença autoimune que estava atacando ainda mais o rim). nesse meio tempo, convivi diariamente com a instabilidade. não sabia o que me aguardava cada vez que eu voltava para casa. aprendi a comemorar pequenas vitórias diárias (quando ela comia, continuava com suas pequenas manias, pirava com uma lata de atum e dormia juntinho) em contrapartida às imensas derrotas a cada novo exame realizado. o quadro já parecia a cada dia mais irreversível e o veterinário já tinha me falado sobre como o fim da vida de pacientes renais era triste e por vezes traumático. a dificuldade de ter melhoras nos exames tinham apontado que de fato, o que estávamos fazendo era garantir algum conforto e nenhuma dor a ela nesse período.

um dia estava no trabalho e um colega tinha chegado atrasado. ele tinha um ar atônito. ele atirou: ‘meu gato morreu. o rim dele parou de funcionar. ele miou estranho, vomitou sangue, convulsionou e morreu. e eu tive de levá-lo para um lugar (pq a gente precisa levar eles para um lugar). e era um lugar horrível, um aterro, um lixão. e eu tive de esperar o lugar abrir. e eu cheguei agora, atrasado’.

bem, esse encontro pautou todas as decisões que eu tomei dias depois. me senti responsável por não deixar minha gata ir embora de forma tão traumática. e eu precisava achar um lugar onde ela poderia ser enterrada quando ela se fosse.

depois de alguns dias sem comer (com alimentação forçada), levei ela bastante debilitada ao veterinário. ele foi bastante claro: talvez ela não resistisse àquele soro e ele não achava viável fazer qualquer procedimento de reanimação. concordei e aguardamos o soro durante 2h. ela teve uma pequena melhora e voltei buscá-la. ela passou a noite em claro, inquieta. na manhã seguinte preparei o soro e o roger veio me falar que achava que ela não tinha resistido. expliquei que não, ela estava ali, mas com sinais vitais muito baixos. fiz o soro e decidi não ir a aula (não podia arriscar deixá-la sozinha com o roger nesse momento, não seria justo). aguardei com ela no colo o horário da chegada do veterinário no hospital. me despedia mais uma vez (foram muitos momentos de despedida que vivi com ela, nunca sabia se a encontraria viva ao voltar do trabalho). ao levá-la ao veterinário naquele dia, no fundo eu já sabia que ela não voltaria para casa. ela já estava desde o dia anterior num quadro de comprometimento neurológico, com reflexos lentos. decidimos pela eutanásia utilizando drogas anestésicas em doses muito altas, afim de evitar qualquer dor ou desconforto.

o veterinário foi muito sensível, respeitoso e me perguntou se eu gostaria de estar junto no momento ou não, que era uma escolha que eu poderia fazer. eu queria estar junto dela até o fim.

é preciso assinar um documento em que se diz ciente de que se trata de um procedimento irreversível. é forte assinar isso: decidir e assinar pôr fim na vida de uma amiga tão querida. me despedi mais uma vez sentindo seu cheio, enterrando minha cara na barriga dela, dando beijinhos como fazia constantemente.

ele me falou que quando eu estivesse pronta ele poderia injetar a medicação. e eu vi. vi o soro correr. a primeira dose de uma medicação transparente correu. depois outra dose de uma medicação leitosa entrou e foi se misturando lentamente, uma nuvem que se aproximava da corrente sanguínea, era aquela névoa de morte que chegava. e ao entrar pelo cateter, a respiração cessou devagar, a pupila dilatou, minha gatinha se foi.

levei minha gatinha no colo. cavei um buraco fundo na terra. estamos tão desconectados dessas questões mais primitivas que eu nem conseguia imaginar o quanto fundo eu deveria ir. cavei. tirei muita terra. eu precisava dessa fisicalidade. cavei. precisava viver essa experiência corporalmente. cavei. ao buscar seu corpinho para meu último contato e despedida ele já tinha mudado de temperatura e começava a enrijecer. abracei mais uma vez, fechei seus olhinhos… envolvi seu corpo pequeno com um tecido de algodão e a coloquei a terra. comecei o processo de cobri-la com terra. é duro. é dolorido. é sofrido. me lembrava da fala de uma amiga que passou por difíceis despedidas: ‘você precisa enterrar seus mortos’. chorei. muito. por fim saímos escolher uma árvore para plantar sobre ela. escolhi uma kinkan. coloquei mais terra, a árvore com cuidado, mais terra em volta e umas pedrinhas por cima. o roger estava lá, todo o tempo. perguntou se eu queria acender um incenso. acendi. chorei mais. 1 mês depois, a kinkan floriu. e eu ainda chorava sua ausência. fez 1 mês e meio. ainda o choro. a história da casa onde moro se confunde com a presença dela. ela chegou praticamente junto comigo na casa. a casa ficou vazia.

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as laranjinhas estavam verdes quando plantei a pequena árvore. com as flores, novas laranjinhas apareceram. cada vez que passo por ela, acendo um incenso e respiro fundo.

as laranjinhas começaram a amarelar e a crescer, pesando no galho frágil. fiz uma pequena estaca para sustentar o galho. com o passar das semanas e dos meses, os frutos começaram a amadurecer. colhi alguns e fui guardando, pra o dia em que a maioria delas estivessem prontas.

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hoje cortei as 22 laranjinhas em 4 partes cada, tirei suas sementes. fervi as canoazinhas em água. descartei a água. repeti o processo. quando elas estavam macias, desliguei o fogo e escorri a água. fiz uma calda com 1 xícara de açúcar, 1 xícara de água, e 4 cravinhos. juntei as laranjinhas e fervi por 10 minutos. guardei em recipiente de vidro aferventado.

quando me vejo cozinhando às lágrimas, sempre lembro da minha mãe em dias difíceis: ela fazia uns mini docinhos com goiabada. abria um pequeno círculo de massa com um rolo, dividia em 8 partes, colocava um cubinho minúsculo de goiabada em cada um e enrolava, um a um cada triângulo. colocava cada pequeno biscoito na assadeira para levar ao forno. repetia o processo muitas vezes, as assadeiras cheias. as lágrimas caindo às vezes, e ela naquela espécie de meditação.

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guardei as sementes das kinkanzinhas. talvez eu faça um seed bomb por aí.

penso sobre os ciclos. sobre como somos efêmeros. a vida como um sopro. a transformação da matéria. e os intervalos, o ‘entre’, aquilo que importa…

qualificação

dia de qualificação = dia de colocar a pesquisa em perspectiva (e a auto estima ‘no lugar’). momento de receber dicas de leituras, apontamentos relevantes, perguntas desafiadoras e vários elogios ao trabalho. foi muito bom. fiquei bastante satisfeita com a escolha de uma banca atenta e generosa (Edson do Prado Pfutzenreuter e Luise Weiss, além de minha orientadora Ivanir Cozeniosque).

passados já quase dois meses, decantando um pouco de tudo que rolou, uma coisa que me ocorre é que a data do exame de qualificação foi a primeira vez coloquei na mesma mesa (na verdade juntei 3) lado a lado tudo (quase tudo) o que produzi desde que iniciei a pesquisa com os pigmentos vegetais. deveria ter feito isso antes (por sugestão inclusive de minha amiga Fátima Roque), mas acabei só fazendo nessa ocasião.

a princípio, coloquei tudo cronologicamente ordenado e durante a conversa com a banca, fomos movimentando os trabalhos e criando outras relações e aproximações (por técnica utilizada, por vegetal estudado, etc). na noite anterior (a qualificação foi na 3a., mas fui para a Unicamp na 2a. para verificar a sala, checar pontos de energia e testar as mídias), passei na biblioteca e peguei alguns livros referente ao assunto coleções e mais precisamente sobre os ‘gabinetes de curiosidades’. ali encontrei algumas referências visuais desses precursores dos museus (de história natural e das artes).

também comecei uma pesquisa visual sobre possibilidades de evocar aos gabinetes sem dar um ar de antigo, vintage ou ultrapassado… já andava investigando modos de expor dos museus de história natural (conforme escrevi anteriormente aqui), mas estou querendo algo mais contemporâneo, que remeta a ideia, mas que não dê um ar falso.

Damien-Hirst

trabalho de damien hirst.

decofrsite2

referência de um site de decoração francês.

decofrsite

referências de site de decoração francês.

mark-dion-misadventures1

montagem de um trabalho de mark dion.

e ainda nessa pesquisa sobre gabinetes de curiosidades, cheguei em domenico vandelli, um naturista italiano que trabalhou em lisboa e coimbra e coordenou uma extensa pesquisa patrocinada pela coroa portuguesa sobre a flora brasileira de dentro de seu gabinete em portugal. a publicação da editora Dantes acaba de chegar em minha casa.

cada livro vem com uma folha de rosto ricamente ilustrada em papel delicado. na aba da caixa, uma explicação sobre o projeto:

depois conto mais sobre isso, porque agora vou ali degustar essa minha nova aquisição! #vivaabolsalivros