quarta prateação

depois de polir o cobre com politriz de bancada, seguida de lixadeira roto-orbital, ontem fiz a prateação. a ideia era seguir as recomendações de Francesco Fragomeni, com quem tenho trocado alguns e-mails. Francesco tem um canal no YouTube e um blog bastante didáticos, que recomendo vivamente para quem tem interesse em fotografia analógica.

vale ressaltar aqui que quando se procura por tutoriais sobre eletrólise a maioria das informações encontradas dizem respeito a joalheria. e convenhamos… para um joalheiro, o que fazemos para a produção de placas para daguerreótipo é um ‘despropósito’: colocamos um monte de prata sobre a placa – o que faz a placa ficar até fosca -, para a seguir polirmos loucamente até a deixarmos espelhada, tirando um monte de prata. por isso, considero a postagem dele sobre ‘eletrólise para placas de daguerreótipo’ uma espécie de utilidade pública, dada a especificidade do tutorial, e também a transparência das informações que ele oferece, mostrando todos os detalhes de sua forma de execução.

o que muda no processo dele em relação a forma como eu procedo minha prateação são os seguintes pontos: Francesco não utiliza desengordurante eletrolítico, ele limpa a placa com álcool desnaturado e acetona; Francesco faz o que é chamado de ‘strike silver’, o que traduzo livremente como um golpe de prata e falarei mais disso a seguir; a voltagem que ele utiliza (2v) é um pouco mais alta do que a que eu costumo utilizar (0,6-0,8v); Francesco faz duas séries de 10min de eletrólise, enquanto eu faço apenas uma de 8min. importante: o banho de prata que Francesco usa é mais simples, infelizmente não encontro assim no Brasil. o meu contém outros elementos ‘abrilhantadores’, que seriam desnecessários para esse processo, mas são muito úteis para a joalheiros (que são os principais consumidores desse produto/banho de prata).

o strike silver, como ele me explicou, é um golpe inicial na eletrólise com voltagem bem alta (6v), afim de conseguir uma prata mais rígida e que adere de forma mais efetiva ao cobre. é uma ‘pancada’ inicial, que não deve ultrapassar os 30s e que utiliza o ânodo de inox para esse ‘choque’ inicial. a seguir, troca-se o ânodo pela prata pura e segue a prateação com duas etapas de 10min cada com voltagem mais baixa.

presumo que esse processo ‘esgotará’ meu banho mais rapidamente, uma vez que para o strike a prata é consumida unicamente do banho. quando eu uso com o ânodo de prata, a solução vai se equilibrando já que a prata sai do ânodo para a solução. enfim… isso é apenas uma divagação.

ao terminar a primeira prata, fiquei em estado de choque com o como a placa estava branca e opaca. fiquei incrédula de que polindo ela ficaria espelhada. interrompi a prateação e comecei a polir a prata antes de seguir prateando as próximas tamanha a minha desconfiança 😆

fiz o polimento manual, como normalmente faço e nada da placa brilhar. resolvi passar para a politriz roto-orbital. muitos minutos depois, a placa começou a brilhar! a roto-orbital, como falei no post anterior, forma um certo padrão (que eu vejo como uma série de ‘escaminhas’ de peixe), quando a placa estava quase toda brilhante, passei para o polimento manual, na tábua de polimento. pronto! estava convencida!

placa da direita está polida, faltando apenas os polimentos finais com black lamp/carvão.

segui e prateei mais duas placas usando o mesmo procedimento do Francesco. em seguida, como meu banho é diferente do dele, resolvi fazer um teste para comparar resultados: mantive o strike silver como descrito pelo Francesco e segui a prateação com meus valores de voltagem e tempo (uma placa com 0,8v e outra com 0,6v, ambas com 8min). elas ficaram com uma aparência mais próxima do que eu normalmente tenho em minhas eletrólises, porém, parecem muito mais resistentes, sem pontos ou bolhas na prateação (que descamam no polimento). a diferença entre as duas últimas das três primeiras é que o acabamento na superfície não ficou branco opaco, fosco. ficou levemente brilhante, como das minhas outras prateações, mas visualmente já parecem mais resistentes.

da esquerda para a direita: strike + 2 sessões de 10min em 2v ainda sem polir, strike + 2 sessões de 10min em 2v ainda sem polir, strike + 1 sessão de 8min em 0,8v ainda sem polir, strike + 1 sessão de 8min em 0,6v ainda sem polir, strike + 2 sessões de 10min em 2v ainda polida na roto-orbital e na tábua de polimento manual.

fiquei super satisfeita com os experimentos,e nas próximas semanas pretendo polir, sensibilizar e fotografar para tirar mais conclusões.

intuo que minhas duas últimas placas (com strike silver seguido de prateação com voltagem baixa) formam uma prata mais macia e mais fina, mais fácil de polir a mão (sem politriz). quero muito entender se isso procede mesmo. e também quero entender se a rigidez a prata influenciará na sensibilidade e escala tonal da imagem final.

de pronto, gostaria muito de agradecer às trocas com o Francesco Fragomeni e recomendar muito para quem tem interesse no assunto visitar seu blog e assistir ao vídeo mais didático que já vi sobre esse assunto (produção de placas para daguerreótipo por eletrólise). parece que finalmente avancei alguns degraus nesse processo ainda um pouco misterioso, complexo e desafiador!

seguimos!

outra ferramenta

outra ferramenta, outras sensações. hoje testei usar uma lixadeira roto-orbital para polir cobre. precisei fazer umas ‘gambiarras’: costurar 🧵🪡um pedaço de camiseta no lugar onde normalmente entraria uma lixa com velcro. usei também um tapete antiderrapante para a placa não sair girando (o sistema de grampos que uso na politriz de bancada não funciona pra roto-orbital). de cara, já estou precisando usar outro equipamento de proteção individual (E.P.I.): protetor auricular. o bicho é barulhento demais!

uma coisa interessante é que diferente da politriz de bancada, a roto-orbital não precisa que você coloque ‘pressão’ contra a placa, a gravidade já faz essa função. outra coisa é que diferente da politriz de bancada, onde o movimento precisa ser ritmado e uniforme, na roto-orbital o movimento precisa ser aleatório, caótico. pude polir sentada, outra diferença. basicamente a ideia é deixar a lixadeira fazer sua dança sobre a placa, e só conduzir de forma imprevisível, sem um padrão de movimento repetitivo. não tem pressão mais tem muita trepidação. é tudo muito diferente.

para eu ter alguma ideia do tempo de polimento, marquei num timer dois ciclos de 5 minutos para cada placa. depois de ter polido as duas placas de cobre com politriz de bancada, peguei uma placa para polir com a lixadeira roto-orbital. fiquei curiosa de observar e comparar as duas placas com uma lupa. tenho essa lupa que aproxima 100x e tem uma luzinha.

essas duas primeiras imagens são da placa duplamente polida (politriz de bancada + lixadeira roto-orbital).

a terceira e quarta fotos são da placa polida apenas com a politriz de bancada.

pq fazer duas fotos de cada placa? pq mudei a incidência da luz de ângulo/lado. ao ver as placas de pertinho, dá para notar que a placa que passou apenas pela a politriz orbital tem pouco risco quando a luz incide de um lado e muito risco quando incide do outro; a placa polida com a roto-orbital tem riscos nas duas direções, mas com o padrão menos definido.

na foto a seguir tem as duas placas com ângulo mais aberto, onde é possível ver que há uma ondulação provocada pela politriz de bancada (placa de cima) que desaparece depois da placa passar por 10min de roto-orbital (placa de baixo).

estou com 5 placas polidas e prontas para pratear no próximo final de semana.

gold and silver | or et argent

chegou por aqui esse livro com ambrótipos, ferrótipos e principalmente daguerreótipos da coleção de Institut canadien de lá photographie.

as imagens são reproduções sangradas nas páginas (que ocupam a página inteira ou páginas duplas em alguns casos). é possível ver muitos detalhes, inclusive a quantidade de riscos nas superfícies dos daguerreótipos (o que de certo modo me ajuda a lidar com minha obsessão com o polimento).

tenho minhas questões com o partido editorial de não colocar as imagens em suas dimensões originais, e também com os cortes que as vezes são necessários para que a foto caiba exatamente no formato da pagina, mas… no final do livro há uma parte dedicada a esmiuçar os detalhes sobre os objetos fotográficos: uma simulação da reflexão com a placa em vários ângulos; uma página toda dedicada a apresentar as capa das caixas/estojos onde os daguerreótipos estavam encerrados; uma página dedicada a mostrar as almofadas de proteção interna do estojo; uma página preciosa com os daguerreótipos com e sem as suas molduras (e onde é possível observar o impacto da moldura sobre a imagem com o passar dos anos; e por fim uma página dedicada ao verso das placas. as reproduções são primorosas e no final, há um índice com todas as informações de cada imagem (autor, retratado/local, técnica, ano, dimensões).

ainda preciso ler os textos, que são bilíngues (inglês e francês), e parecem bem interessantes.

mais uma vez procurei e não encontrei menção à quem realizou as reproduções tão bem feitas das imagens desse livro. considero uma falha gravíssima.

espelhos de primeira superfície

depois de ter feito três prateações por eletrólise sem ter muita consistência no processo; e depois de ter as duas placas (prata sobre bronze) feitas pelo Andres subtraídas de mim, resolvi experimentar fazer os espelhos de primeira superfície.

segui a receita do Camilo Sabogal que costuma fotografar daguerreótipos sobre espelhos de prata. antes dele, tinha visto em 2018 um daguerreótipo sobre espelho de primeira superfície feito por Luís Pavão em portugal.

a matéria prima necessária para fabricar espelhos é de fácil acesso. de verdade, só precisei comprar a glicose anidra, pois os demais itens eu já tinha (e o amoníaco concentrado eu pedi emprestado ao Roger).

antes de fazer os espelhos, foi necessário construir um tanque de acrílico para acomodar as placas. fiz um desenho e o Roger me ajudou a construir.

para começar, devo dizer que o vidro é um velho conhecido. cortar, polir as bordas e limpar quimicamente placas de vidro são procedimentos bastante naturais para mim (por eu já fazer ambrótipos), e mais rápido do que polir e desengordurar placas de cobre. com isso quero dizer que o vidro é um material mais amistoso para mim do que o cobre.

o meu tanque é um pouco menor do que o do Camilo, e tem capacidade de aproximadamente 140mL. minhas placas de 6x9cm são menores também (as dele são 4×5”). tirei uma série de dúvidas com o Camilo, fiz os cálculos para o volume do meu tanque e iniciei o processo.

fui adicionando o amoníaco aos poucos, com conta gotas. para o meu volume de solução, cheguei a 130 gotas até que a solução de hidróxido de prata ficasse transparente.

ao adicionar a solução de glicose na solução filtrada, em menos de 30 segundos a reação ficou visível: o becker começou a pratear.

despejei a solução no tanque com os vidros limpos e deixei a reação acontecer por aproximadamente 2 horas. ao retirar as placas do tanque para lavá-las me surpreendi com a quantidade de resíduos da reação. as placas estavam revestidas com uma espécie de lodo marrom. lavei as placas mas foi fácil constatar que a camada de prata estava fina pois ao olhá-las contra a luz era possível enxergar através.

sequei e depois de alguns dias experimentei polir usando o mesmo método que uso nas placas de cobre revestidas com prata. ao polir, parte da prata começou a soltar. ao tentar lavá-las, mais prata se soltou.

definitivamente não é possível usar o mesmo método. poli outra placa suavemente apenas com negro de fumo (black lamp) em uma bola de algodão. preciso comprar fluido para isqueiro (acho que é o que o Camilo utiliza). falava com o Andres na ocasião e ele me pediu para fazer o teste dos anéis de Talbot: colocar uma pequena “partícula” de iodo por um minuto e verificar quantos anéis produzia. confesso que já tinha visto falar a respeito disso, mas não tinha uma referência bibliográfica que indicasse como medir por meio da quantidade de anéis e a espessura da prata depositada num suporte. o andres me passou essa referência. aproveitei e fiz o teste com as demais placas que eu tenho (as cladizadas e também as eletrodepositadas, feitas por mim). curiosamente notei que parte das placas que produzi por eletrólise em dezembro não estavam tão ruins quanto eu pensava…

anéis de Talbot nas placas: acima eletrólise, embaixo esquerda cladizada, embaixo direita espelho primeira superfície.

um parêntese aqui: quando algo dá errado nas placas eu fico tão irada que as abandono por um tempo (por que olhar para elas significa pensar em todo o tempo, trabalho e dinheiro despendido sem sucesso). passado um tempo, consigo voltar a olhar para elas com um pouco mais empatia (e até a usá-las criativamente).

com base nesse primeiro experimento algumas reflexões e algumas coisas para tentar na próxima tentativa:

– a prata não aderiu muito bem no vidro.

– camada de prata ficou fina.

– o becker ficou melhor prateado do que as placas.

pensei em fazer uma nova tentativa mudando uma parte da fórmula e também um pouco do procedimento, além do tempo de reação.

aumentei a concentração da solução de glicose para 5%, aumentei o tempo de reação para 3h e misturei a glicose já no tanque para que a reação começasse a acontecer no próprio tanque (uma tentativa de ‘perder’ menos prata) e que prateasse apenas os vidros que foram colocados 2 minutos depois.

curiosamente o tanque de acrílico prateou! ao final de 3 horas, as placas ainda ficaram finas de prata e estranhamente a borda inferior das placas não prateou. ficaram também bastantes resíduos. aparentemente o resíduo do fundo do tanque impediu a prateação na borda. as placas ficaram mais manchadas também.

algo que não sai da minha cabeça é que deve existir uma relação entre a concentração de prata e a área de superfície a ser prateada. e disso dependeria a espessura de prata depositada no vidro.

se eu fizer uma terceira experiência, na minha próxima tentativa será usar a mesma fórmula e tempo, mas reduzir a área de superfície a ser prateada (colocar menos vidro) e ver se isso alterará o resultado da espessura das placas.

vi também alguns vídeos em que o processo de espelhar é feito com as placas de vidro na horizontal. presumo que a solução nesse caso deva ser bem mais concentrada. o processo tem um início de reação bastante potente e me parece um desperdício essa intensidade (e essa prata) ficar no becker ou no tanque…no

no teste dos anéis de Talbot, pouca diferença em relação à prateação anterior. talvez, com algum esforço se veja um terceiro anel mais difuso… mas a placa está mais opaca e manchada em relação à primeira tentativa.

enfim… quanto mais eu olho para os espelhos de primeira superfície e mais eu os comparo com das minhas placas feitas por eletrólise, reflito: será que passado o rancor inicial (por algumas placas eletrodepositadas terem dado errado em dezembro) eu finalmente estou conseguindo enxergar aquelas que deram certo? ou será que meu padrão de placas ‘boas’ caiu muito? 🤣

acima à esquerda, placa produzida por eletrólise

penso em insistir ainda mais nos espelhos, mas… vou dar uma pausa (pra alternar os motivos de meus fracassos), e na minha próxima ida ao estúdio vou polir as e fotografar nas placas de dezembro.

desejem-me sorte! 🍀

America & daguerreotype

O livro editado por John Wood, America & the Daguerreotype, está separado em capítulos temáticos: retrato americano; estética alternativa (introdução do calótipo na América); sexo, morte e daguerreótipos, daguerreótipos contemporâneos, entre outros (ver imagem com sumário). Das 12 imagens que estão no capítulo sobre daguerreótipos contemporâneos, 4 imagens são de Irving Pobboravsky e Grant Romer, e infelizmente estão impressas no livro em PB (impressão sem informações de cor). Há uma escolha editorial de colocar as imagens impressas em cores apenas no final do livro (imagino que para tornar a impressão menos dispendiosa), o que é uma pena. Nessa parte final com as placas impressas em cores, não há muita informação sobre as imagens junto da fotografia (como há nas fotos que aparecem ao longo dos textos dos capítulos), mas tem uma área dedicada às notas sobre essas placas, em que o autor se debruça individualmente sobre essas imagens tecendo comentários e trazendo mais informações sobre a foto, seus autores e o contexto histórico e cultural em que foram produzidas. Há também uma escolha em oferecer as seguintes nomenclaturas das medidas das placas descritas pelo autor: whole plate (placa inteira, 6 1/2×8 1/2”, 16,5×21,5cm), half plate (meia placa, 4 1/4×5 1/2”, 10,8x14cm, quarter plate (1/4 de placa, 3 1/4×4 1/4”, 8,2×10,8cm), sixth plate (1/6 de placa, 2 3/4x 3 1/4”, 7×8,2cm; ninth plate (1/9 de placa, 2x 2 1/2”, 5,1×6,5cm). No capítulo “Notas sobre as placas”, o autor inicia mencionando que: “Mesmo a melhor reprodução de um daguerreótipo não pode capturar sua qualidade tridimensional, quase holográfica; no entanto, as excelentes reproduções neste livro chegam perto de sugerir essa magia. O indivíduo que nunca segurou um daguerreótipo e o moveu para captar seu jogo milagroso de luz e sombra precisa fazê-lo para entender o que essas ilustrações de papel tentam sugerir, para dar aquele salto mental entre o que é papel com tinta e o que é a prata gravada pela luz.”

fotoportátil 2 – cris bierrenbach

Infelizmente poucos brasileiros seguem praticando a daguerreotipia com regularidade. Conheço apenas dois: o Francisco Costa, que revela com mercúrio; e a Cris Bierrenbach, que faz Becquerel. Fora eles, vejo muita gente que fez uma vez ou outra em workshops, mas não conseguiram continuar praticando, como foi meu caso também até 2018. Cris é uma artista que admiro demais e tenho acompanhado seu trabalho desde que a conheci numa aula na graduação do Senac, em 2001.

Era indispensável eu ter o livro do trabalho da Cris bierrenbach. Confesso que demorei a comprar esse livro por um motivo simples: não gosto do partido gráfico da coleção fotoportátil. A coleção até tenta ser simpática, com a possibilidade de ser desdobrada de diferentes formas, mas não gosto da impressão: os pretos ficam manchados e as dobras perdem a tinta formando um risco branco (por vezes no meio de uma imagem). Outra coisa que me aborrece é a lombada, que invariavelmente fica amassada: nem redonda, nem quadrada. É uma pena. Valorizo que a seleção de artistas que fazem parte dessa coleção são maravilhosos, mas foi o primeiro livro da coleção que comprei (e um pouco a contragosto). Quando vi a edição do Eustáquio, achei criminoso com suas imagens, nas dele a dobra fica no meio das imagens, é triste.

De qualquer modo, apesar dos pesares, é bom ver a produção da Cris reunida num livro e poder rever as reproduções de seus daguerreótipos sempre que eu quiser. Em tempo: o livro não traz apenas os dags da Cris, mas um compilado de toda a sua produção.

intercorrências

o andrés bonafedes tem pesquisado ao longo dos últimos anos uma forma de pratear suas placas. e oferece cursos em mendoza-argentina, onde ensina seu processo e também a parte de polir, sensibilizar, revelar e fixar becquerel. em dezembro de 2021, conversei com o andrés sobre fazer com ele um curso online. juntou-se a mim o jorge e pensamos em termos as aulas juntos. uma amiga brasileira dele voltaria ao brasil no início do ano e poderia trazer duas placas, para que eu pudesse testá-las usando meus procedimentos antes de fazer o curso.

fui até o endereço da amiga de andrés para buscar as placas numa tarde de janeiro. fui até a portaria dela, peguei o envelope, abri, notei que as duas placas de jorge estavam juntas com as minhas, voltei à portaria e devolvi as placas que não eram minhas.

o que sucedeu mais parece um filme de terror. enquanto caminhava para o carro, que tinha estacionado na outra quadra, começou a chover. caiu um raio muito perto dali (som, estrondo e luz, tudo junto). comecei a correr para chegar ao carro. entrei nele e coloquei a chave na ignição. antes que as portas fossem travadas, notei um vulto se aproximando do carro. era tarde demais. ele abriu a porta, e estava armado. reagi, não queria entregar minha bolsa, onde estava o celular recém comprado em kansas city, cartões de crédito/débito/sodexo, documentos pessoais e do carro, carteira de estudante… e as duas placas que tinha acabado de ir buscar. foi estúpido reagir. nunca imaginei que teria essa reação. pedi que não levasse tudo, e com alguma dificuldade ele conseguiu puxar e levar a bolsa, e eu ganhei alguns hematomas no braço. fechada no carro, também me surpreendi com o quanto gritei de revolta. nunca tinha me visto assim. ainda sem saber o que fazer, me lembrei do celular antigo que estava no porta-luvas, porém sem rede, e do gps velhote que tenho usado para não usar celular no painel do carro. foi o que me salvou ao me trazer de volta a casa. não… eu não podia voltar para casa. as chaves estavam na bolsa. mudei a rota para o estúdio do roger, torcendo que ele estivesse lá. deixei o carro num estacionamento, e caso ele não estivesse no estúdio, eu nem conseguiria tirar o carro de lá, pois sem cartões e sem dinheiro. encontrei o roger, e com o celular dele liguei para cancelar cartões e fomos até a delegacia ali perto. o b.o. demoraria 3 horas para ser feito, pois tinha acontecido um assalto com morte na região e os policiais estavam todos empenhados nesse caso. até coloquei meu assalto em perspectiva. o policial sugeriu que ligasse no 190 e indicasse a localização do celular. fizemos isso. minutos depois, um policial entrou em contato, dizendo que tinham achado um suspeito, e que eu deveria ir até uma delegacia (próximo do local do assalto, longe de onde eu estava) para fazer o reconhecimento do suspeito e da arma. não vou entrar em detalhes aqui, por que quero tentar esquecer disso tudo. só é importante dizer que fiquei horas na delegacia. e nenhum policial usava máscara. e que não recuperei nenhum de meus pertences, exceto meus cartões quebrados (e que já estava cancelados).

dias depois, eu ainda estava na “bad” tentando lidar com todas as reflexões sobre apego, consumo, justiça, segurança que esse evento me suscitou… comecei a ter sintomas de covid. sim… além de não recuperar nada, ganhei covid na delegacia.

reforço aqui que muitas pessoas não conseguem saber onde contraíram covid… não é o meu caso. eu sei EXATAMENTE que foi lá. sou a pessoa mais paranoica com a pandemia que eu conheço. só uso máscara pff2 desde 2020, não saio, não encontrei amigos nem família uma semana antes, não vou ao supermercado, compro tudo online, saio para ir trabalhar, mas estava em trabalho remoto na semana anterior e eu jamais estaria num ambiente fechado ao lado de pessoas sem máscaras se não fosse obrigada a isso.

enfim… não diria que tive sintomas leves. não tive o quadro mais grave de covid, mas o que tive está bem longe de terem sido sintomas leves. apesar de já ter tomado as duas doses da vacina de oxford (estava aguardando a terceira dose que deveria ser no fim de janeiro), fiquei 5 dias de cama, manejando febre com antitérmicos e banhos mornos. depois segui ainda com outros sintomas (dor no corpo, cansaço, e tosse) por mais alguns dias. passados desgraçados 10 dias, fiz o teste e deu negativo.

comecei agora a retomar a vida… e por que estou escrevendo isso aqui? por que foi uma balde enorme de água fria na minha pesquisa. naquele mesmo dia eu testaria as placas, nas semanas a seguir faria o curso com o andrés, e tudo ficou em suspenso até o fim de janeiro.

comecei também a retomar a ideia de testar fazer os daguerreótipos sobre espelhos de primeira superfície, como faz o camilo sabogal.

retomei também as conversas com o orientador e o meu texto. num dado momento ele colocou um comentário no meu texto dizendo que ele tinha a impressão de que minha opção por fazer eletrólise nas placas não é só uma questão de custo, mas também de participar de todo o processo. não… ele não totalmente certo. talvez se eu pudesse ter seguido o plano de fazer meu próprio banho de prata na LabPea, sim. na atual circunstância, lidar com cianetos é só um stress a mais que eu me pouparia, caso pudesse comprar as placas prontas por um custo razoável. quando o roger precisou fazer piroxilina, pois não se vende colódio usp no brasil, também não era por querer participar de todas as etapas. é muito risco. acredito que ninguém (em sã consciência) lida com cianetos ou com litros de ácido sulfúrico por que quer… é só por que é a única opção que temos mesmo para fazer os processos no brasil a um custo viável.

minha pesquisa atual está em tentar outras opções para a produção do suporte, seja ele de cobre, bronze ou vidro.

algumas reflexões tem rondado meus pensamentos: se, a rigor, os daguerreótipos (becquerel) são imagens sobre uma superfície de prata pura sensibilizada com iodo, qual a diferença se o que carrega essa camada de prata pura for cobre, bronze ou vidro?

bem… se as placas estivessem prontas e eu simplesmente registrasse a imagem, provavelmente teríamos as diferenças visuais relacionadas à espessura da prata sobre o suporte rígido e as implicações disso. mas não só isso. há um polimento que difere a depender dessa espessura de prata nesse suporte. e caso a placa precise ser produzida por mim, há uma parte importante que envolve o preparo dessa superfície (bronze, cobre ou vidro) e a produção dessa placa.

de imediato eu diria que me interessa mais trabalhar com o cobre revestido de prata.

o andrés me colocou que seria interessante descobrir o que nos leva a escolher alguns materiais e por que a construção cultural associa alguns materiais a nobreza em detrimento de outros. penso que no caso dos metais, além da estética, tem algo a ver com estabilidade (não oxidar) e resistência. enfim vidro não é metal, quando penso no vidro, acho que é de uma outra natureza de suporte, frágil. quando penso no bronze, imediatamente imagino minha relação física com essa matéria. então, quando prefiro cobre, não tem a ver com nobreza do material, tem mais a ver com o embate físico que eu teria com o bronze, que é mais rígido em comparação ao cobre.

em seguida ele me questionou se eu considerava a quantidade de energia necessária para produzir cobre… e sobre isso… penso que se eu me aprofundasse nessa reflexão, possivelmente não faria daguerreótipos. eu não saberia (apesar de estar em busca de respostas) dizer o que justifica fazer imagens sobre metais nobres nos dias atuais, exceto esse imenso desejo de fazê-las. não é sustentável. é arriscado. e financeiramente custoso. a única resposta que tenho por agora é: eu quero fazê-las. então… eu procuro essas dessas respostas, seguindo esse desejo para ver se ele próprio me responde.

ainda sobre o suporte, eu entendo que um daguerreótipo é uma imagem que contém todo o processo necessário para produzí-la. o processo faz parte da imagem. e esse embate que eu tenho com a matéria está lá, em suas entranhas. lembra da póetica dos fracassos?

curiosamente, minutos depois dessa conversa, ao pegar um livro de bachelard, ele continuou o diálogo conosco. ele comenta sobre a contradição das matérias resistentes.

“é preciso, em nossa opinião, estreitar união forma e força e atingir essa eficácia de ação que ajuda o preço dos a priori do trabalho, a priori que dão origem a uma vontade de agir utilmente, realmente, materialmente , determinando no real o complemento direto de todo o projeto subjetivo. Logo, não devemos ficar surpresos se a escala de dureza das matérias trabalhadas é em muitos aspectos uma escala de maturidade psicológica. (…) Nessa escala das durezas, o que queríamos demonstrar é que são envolvidos valores psíquicos bem diferentes quando se passa de uma matéria a outras, sobretudo se modifica a forma de ataque. (…) Uma enciclopédia dos valores psicanalíticos do trabalho também deveria examinar os valores da paciência. Ao lado da forma desbastada viria o estudo da forma polida. Um novo aspecto temporal deveria então ser incorporado ao objeto trabalhado. O polimento é uma estranha transação entre o sujeito e o objeto. Assim, quantos sonhos podem estar contidos nesse belo dístico metafísico de Paul Eluard (Livre ouvert, II, p 121):

Cinzas, bruni a pedra

que brune o dedo estudioso” (Bachelard G. A terra e os devaneios da vontade: ensaios sobre a imaginação das forças. trad. Maria E. A. P. Galvão. 4a. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2013. pp. 37, 38, 40)

terceira prateação

bem, na minha última tentativa de pratear placas queimei minha retífica e demorei meses enrolando para comprar outra. a nova chegou na sexta (ontem), dei uma última polida nas 5 placas novas que já estava lustrando há meses e ‘re-poli’ 5 placas da outra prateação que ficaram manchadas no desengordurante. tinha 10 placas e uma retificadora nova, e muita tensão. arrumei tudo na varanda da frente. as abelhas que ficavam na varanda da frente morreram e tem andorinhas fazendo ninho na varanda de traz (onde eu fiz a prateação das outras vezes).

eu tinha comprado um desengordurante novo também, porque no fórum (dag’s house) do fb confirmaram minha suspeita em relação à minha última prateação (o motivo do desprendimento da prata foi desengordurante exausto).

tudo posicionado, liguei a energia e fui subindo a voltagem na retificadora. nunca que chegava nos 6v. menos ainda nos 8v sugerido pelo rene sméts. segui com 5v que oscilava um pouco pra baixo, mas o desengordurante estava borbulhando legal (como da primeira vez, na segunda ele estava meio fraquinho mesmo). uma coisa estranha foi que vez ou outra a amperagem zerava e a reação parava de acontecer. daí eu pausava o timer desligava, ligava de novo, mexia nos cabos, nos jacarés, no fio de cobre que prendia a placa… mistério. desconfiamos do contato dos fios de cobre e da haste de cobre, lixei para tirar a área oxidada, mas continuava fazendo da mesma forma. uma coisa que percebi foi que a ventoinha ficava ligada quando a eletrólise era no banho de prata (a voltagem oscilando entre 0,5-0,8v) e quando passava de 0,8v, a amperagem zerava, indicando que não tinha corrente passando… mistério. desconfio que seja um sistema interno de proteção envolvendo a corrente elétrica. é seguro para o equipamento não queimar, mas extremamente chato e desconcentrante para quem está operando conseguir sistematizar o tempo (efetivo) no banho de prata. notei também que ao colocar o cobre no banho, ele já automaticamente começa a pratear, mesmo sem carga elétrica.

enfim, horas mais tarde, eu tinha uma estante com 10 placas prateadas.

se estão boas não sei dizer, isso só consigo identificar quando faço o polimento da prata.

estou na torcida para que estejam boas. é sempre muito tenso fazer esse processo.

eu tinha planos de aprender a formular meus banhos de prata sem cianetos no laboratório de eletroquímica da universidade (unicamp), mas a pandemia arruinou esse meu plano. acabei por comprar banhos prontos, com cianetos. então, mesmo fazendo ao ar livre, usando máscaras para vapores tóxicos, é sempre uma tensão.

vi recentemente um rapaz na argentina (andre bonafede) que tem feito a pesquisa de uso de banhos sem cianetos. tem também o processo de fazer daguerreótipos sobre espelhos de primeira superfície (que o camilo sabogal ensina na colombia)… alternativas para parar de mexer com cianetos é algo que pretendo investigar mais. quando percebi que não conseguiria comprar as placas do mike, fui na única alternativa que parecia viável no momento: comprar o banho pronto.

repito aqui algo que falei com um amigo quando comentou que o roger e eu éramos muito “roots”, que fazíamos as coisas do zero (o roger fez a piroxilina para o colódio e eu resolvi pratear minhas placas pra daguerreótipo)… olha, eu entendo que ninguém lida com cianetos ou com litros de ácidos sulfúrico e nítrico por que quer, mas sim por que é a única alternativa possível para seguir a pesquisa…

enfim, seguimos.

viajante no arkansas

o Roger foi convidado para ir colaborar com alguns projetos artísticos do Chuck Davis. a ideia inicial era conhecer o laboratório fotográfico recém montado por ele na cidade de rogers, e de certo modo “estressar” o espaço, fazendo vários processos históricos para verificar se tudo estava funcionando bem ou se precisaria de algum detalhe/ajuste e também fazer algumas saídas com o laboratório móvel para ferrótipos que ele instalou em seu carro. eu acompanhei o roger nessa viagem.

foi intenso! teve de um tudo: E-6 manual, C-41 manual, revelação filmes e chapas em PB, placa úmida (ferrótipo), produção de emulsão de gelatina, cobertura das placas e revelação de placa seca de gelatina, revelação de negativo de papel (calótipo), cianótipo na mesona de luz U.V., papel de colódio cloreto e… talvez eu tenha esquecido de alguma coisa.

nosso retrato na primeira tarde 🙃
passagem pro lab

tudo funcionou super bem ❤ o lab novo do Chuck é incrível e super bem equipado, e ele tem uma secadora de papéis toda desmontável, invejável, linda de matar (só senti falta de um suporte de papel toalha na parede, bem perto da pia, mas isso é pq ficar enxugando a mão/luva com papel toalha toda hora é tipo um vício pra mim no lab 😬).

Secadora desmontável

tivemos a oportunidade de sermos acolhidos na casa e pela família do chuck, passar o dia de ação de graças em família com eles (com todos os práticos típicos e a maravilha que é a cranberrie sauce feita pela alyssa!), e também de conhecer diversos fotógrafos da região (Adam Finkelston, Steve Wilson, Jon Onstot, Brioch, entre outros), fomos à hunter´s home e também ao museu crystal bridges.

comemos uma variedade imensa de pratos, e tivemos a sorte de sermos mimados pela Susan, que cozinhou vários dias pra nós (e ela me passou sua receita de panquecas americanas com abóbora ❤️) além de proporcionar diálogos instigantes sobre características culturais, memórias e recordações durante as refeições. contamos com todo apoio da Hilary na questão dos testes de covid (faltou Hilary nas fotos de monóculos 😢💔), com a disponibilidade de Nathan e de Alyssa para imprimir um artigo que eu precisava ler durante a viagem. com a animação do James (que propôs jogarmos UNO no thanksgiving) e da Olívia (que super se animou jogando folhas de outono na sessão de fotos para monóculos).

e teve o Chuck, um cara sensível e com percepção aguçada e assertiva, que me indicou conhecer o projeto da lucky star farm por considerar que se aproximava da minha poética. ele acertou na mosca! foi realmente fantástico conhecer o projeto de Donna e David.

Chuck e eu

como bônus, Chuck ainda me convidou para realizar um trabalho em parceria para uma exposição.

todos foram super pacientes com meu inglês ruim, e me deixaram bem confortável para falar errado a vontade! ❤

ganhamos presentes deliciosos para adoçar nossos dias, para equipar minha cozinha e nossos labs ❤️

mensagem em português ❤️

fiz poucas fotos analógicas na viagem. fiquei mais interessada em fazer panorâmicas com o celular novo. foi a empolgação com uma paisagem tão nova de outono, e a alegria de olhar tantos horizontes depois de ficar quase dois anos em quarentena no apartamento pequeno (olhando a vida acontecer só no monitor do laptop). o Roger se empolgou com a câmera (Made Up) dele, que sempre abria diálogos com quem a visse e também com a Olympus pen (half frame).

ainda estou processando toda a intensidade dos dias, mas queria deixar pontuado aqui no blog essa viagem tão especial.

ganhamos até um certificado de viajantes do arkansas! 💗

certificado de viajantes 💗